15 dezembro, 2011

Germes

Tiras a caneta da boca. O fio de baba cai de entre os lábios e desce devagarinho pela pele, arrepiando os pelinhos invisíveis que se arrebitam no teu queixo. Faz uma linha quase perfeita, não fossem as duas gotas mais grossas a meio. Entremos. Encolhamo-nos milhões de vezes até sermos parte da multidão que habita essa bolha, esses dez milhões de seres que se amontoam num mundo de casas amarelas e estradas que as recortam. Aprendem na escola como ali chegaram, anos atrás, um povo habituado à seca contínua e ao sol do deserto. Aprendem como um terramoto rasgou a própria Terra em dois e deu início a uma nova era, como um arranhão marcado na pele, vermelho sobre o branco, enterrado a fundo. O deserto deu lugar à sombra, a um clima húmido e tropical que estimulou a população a reproduzir-se. Todos os estragos foram rapidamente apagados à medida que se levantavam prédios e fábricas, que se plantavam jardins e florestas e se desviavam leitos de rios. São todos relativamente felizes, seguindo as suas próprias vidas sem preocupações. Sabem que à volta da Terra existe uma mancha negra chamada universo, onde se acumulam planetas como o deles mas sem pessoas como eles. Aprendem-no na escola mas não se preocupam muito com isso. Interessa-lhes mais o que se passa lá dentro do que o que não se passa lá fora. Sabem que isso poderia mudar as suas vidas, a própria vida como a concebem, mas de repente têm mais com que se preocupar. Já não são tão felizes. São muitos num mundo construído por poucos. Há velhos a mais e jovens a menos para os sustentar. E os jovens a menos são a mais para os empregos que há, que são a mais para o dinheiro que não há, que simplesmente desapareceu, que caiu pelo buraco do bolso das calças de um desses poucos que construiu o mundo de muitos. Morrem lentamente, uns em sacrifício dos outros enquanto se recusam a corrigir uma sociedade obsoleta, afundada em imagens falsas de perfeição. Compram-na diariamente, acreditando que quanto mais a comprarem mais felizes serão, sem perceber que a felicidade é um sentimento que vem de fora, talvez desse universo indesvendável que têm vindo a esquecer. Afundam-se assim devagarinho, metafórica e literalmente, não fossem eles nada mais, nada menos do que os germes que habitam a saliva que caiu dos teus lábios quando tiraste da boca a caneta que roías furiosamente sem te aperceberes, enquanto tentavas entender as linhas de fórmulas matemáticas que o professor vai escrevendo no quadro branco da sala de aula.

27 novembro, 2011

Memórias

Memórias  -  pedaços de vivências seleccionados segundo critérios pessoais que variam de pessoa para pessoa. Armazenam-se no cérebro sob a forma de uma matéria viscosa, semi-transparente, que se agarra a outros pensamentos, deformando-os. Este processo, que dá pelo nome de "lembrar", provoca sintomas  como distracção, dificuldade de concentração e alterações emocionais como o riso, o medo, o choro compulsivo, a raiva, a saudade. Observaram-se em pessoas que padecem desta doença dois tipos de reacção: a necessidade de guardar a memória e a necessidade de a partilhar. Esta doença é altamente contagiosa e o simples contacto com outros provoca a propagação do vírus. Até hoje não são conhecidas curas.

01 novembro, 2011

Vida de rua


Levas o cigarro à boca. Inspiras. O fumo sai-te lentamente por entre os lábios, de encontro ao ar frio da noite. Não aquece. Não atenua a crueldade da rua. Continua tudo exactamente como estava. O cobertor sujo, a prostituta. Um carro abranda, parece que ela já teve a sua sorte. E a tua? Vês uma cadeira de bebé na parte de trás. Lembras-te do teu. O bebé que fizeste e nunca chegaste a ver. Lembras-te dela. Aquela a quem chamaste puta, apesar de a verdadeira estar agora à tua frente, inclinada sobre a janela do carro. Não é pior que tu. Ela troca o corpo e a dignidade por comida. Tu troca-los por bebida. Pela droga que te desce agora aos pulmões. Cada um tem o seu preço. Basta tocar na ferida e todos vacilam. Todos caem na armadilha que é a vida. Ratoeira. Lembras-te do ratinho que tinhas na tua infância. Segura-lo na mão e escondes-te atrás de um corpo. Uma saia verde escura. O portão de ferro volta a estar à tua frente. Não queres ir para a escola. E mais valia não teres ido. Foi lá que tudo começou. Que levaste o primeiro cigarro à boca. Tossiste, os outros gozaram contigo. Ainda ouves os risos deles na tua cabeça. Queres atirar o cigarro ao chão. Parti-lo em dois. Como ela fazia. Lembras-te dos seus lábios. Do vapor quente, adocicado que deles se soltavam. Afundas-te outra vez nesse odor, como fazes sempre que estás em baixo. No seu sorriso. E agora ela foi-se. Tal e qual a prostituta. Imaginas esfaquear esse homem que a levou. O prazer de sentir as suas entranhas na ponta da tua faca. Lembras-te da primeira vez que o fizeste. Do olhar assustado, as lágrimas a precipitar-se num agudo pedido de ajuda. Que pares. Todos eles querem o mesmo. Que pares. Não é isso que queres para ti mesmo? Mas continuas sentado no chão, no cobertor sujo. Sabes que o teu cheiro enoja os outros. Os perfeitos. Os que souberam parar sem nunca terem começado. Por nunca terem começado. Lembras-te dos olhares que partilhavas na prisão. Olhares severos de quem não confia em ninguém. Também tu deixaste de confiar no mundo, muito antes de ser altura de o fazeres. Entre a pureza angelical daqueles meninos de ouro, bem engomados nos seus uniformes escolares, já tu sabias que o mundo não era cor-de-rosa. Olhas as tuas mãos. Tens os dedos sujos pela vida. Gostavas que a prostituta não se tivesse ido embora. Imaginas-te a penetrá-la furiosamente, mas nem para isso serves. Até nisso os meninos de ouro ganham. Apagas o cigarro na borda do passeio e encolhes-te no cobertor. Talvez o amanhã não venha. Talvez tenhas a tua sorte.

21 setembro, 2011

Minuit a Paris

Paris é considerada a cidade mais romântica do mundo. Sempre discordei deste pensamento até visitar a cidade. Há tantos espaços no mundo, cheios de encantos inexplicáveis, que fariam saltar o coração de qualquer casal que por lá se passeasse. Roma, que nos leva para trás, de volta a um tempo em que se usava lençois brancos à volta da cintura, que a perfeição, essa via-se ao longe, esculpida na pedra. Praga, cidade de fábulas e contos de fada, onde tudo parece real e possível. Até mesmo a Londres pacata das casinhas com jardim, onde se imagina logo um casal a envelhecer de mão dada junto à lareira. 

Mas então vi Paris. A Paris das ruas estreitas, semi-esquecidas, trocadas pelas grandes avenidas que tomam os turistas, as ciganas surdas-mudas, os cantores de rua e os vendedores ambulantes. A Paris dos croissants a cada esquina, das banquinhas de livros e postais de outra época que se estendem à beira rio. A Paris medieval da Notre-Dame, das histórias enterradas. A Paris da cultura, da boémia, da alegria do carácter bem definido, dos bigodes compridos, das boinas na cabeça e baguetes debaixo do braço. 

Sim, Paris é a cidade mais romântica do mundo. Não porque albergue nela a receita secreta dos casais felizes, que esses, se tiverem de o ser, são-no, romanticamente, em qualquer canto do mundo. Paris é aquela mulher enigmática que se deixa gostar facilmente mas parece impossível de conquistar. Faz connosco um jogo de sedução constante, um olhar simultâneo de desafio e repulsa, um sorriso de dúbia confiança e palavras doces cheias de malícia. 

Paris é a cidade mais romântica do mundo, sim, mas porque é impossível por lá passarmos sem nos apaixonarmos cegamente por ela.  

Por tudo isto, obrigada Woody Allen, por me fazeres reviver Paris.

13 setembro, 2011

Hippie Chique

Recebi um email publicitário, daqueles que não sabemos muito bem de onde vieram, visto que nunca fornecemos o nosso email àquela empresa. Este em específico era de uma marca de roupa, e anunciava, em letras bem grandes, as novidades, "Acessórios de hippie chique".

É uma situação que me fez rir, rir muito, e bem alto. Hippie e chique são coisas que não combinam. O hippie é um ser que usa calças gastas, que encontrou no sótão ou comprou numa loja de segunda mão, porque era mais barato. Usa vestidos ou camisas largas, para poder andar à vontade, sentar-se no chão, apanhar os legumes que plantam na horta. Anda de pés descalços, para sentir a terra, ligar-se à natureza. Colares, pulseiras, cintos e acessórios, são normalmente coisas feitas à mão, por ele próprio, amigos e conhecidos, ou tão somente uma das feiras de artesanato que frequenta.

A partir do momento que uma coisa é chique, que não obedece à lógica do prático e confortável, e que tem como fundo servir as aparências e é fabricado de modo massivo e industrial, deixa de ser hippie. Hippie chique, não existe, tenho muita pena.

06 setembro, 2011

Quem disse que Deus não existe?

É omnipresente. Omnisciente. Omnipotente.
Só não criou o Homem. Pelo contrário, foi o Homem que o criou a ele - ele? Ela!
Deus é a Web.

28 agosto, 2011

Cem Anos de Solidão, Gabriel Garcia Marquéz

São cem anos de Buendía, a "família de loucos" que repetem uns após outros as mesmas façanhas, os mesmos erros. São cem anos de Macondo, a terra que eles próprios inauguraram e que vão vendo evoluir com a chegada dos ciganos, dos turcos, das francesas e dos americanos que gerem a companhia bananeira.
 
Se ao princípio ficamos simplesmente com a sensação de que estamos a ler uma série de disparates com uma certa piada, à medida que o monte de páginas se torna maior junto à capa do que à contra-capa percebemos que há ali algo mais do que uma simples história de uma família e de um lugar. Estamos perante uma história de avanços e retrocessos próprios da evolução humana - casar, ter filhos, morrer; revoltas e progressos tecnológicos, alfabetização, analfabetização, a influência do tempo, do governo, do exército. É uma critica à política, à família, à guerra, ao casamento, à tecnologia, ao estudo e ao lazer, à forma como os homens conduzem o seu mundo. Um apelo mudo em forma de gracejo. 
 
De facto, Garcia Marquez não se poupa ao criar as situações mais bizarras e os enredos mais espectaculares, dando à história um humor muito sul-americano que encontrei nos livros de Mário Vargas Llosa e Laura Esquivel. É este humor que vai servindo de cola unificadora da história - é ele que nos prende à história e nos vai passando a crítica, que nos vai mostrando o quão ridículo somos.

É um retrato real de um mundo que se vai criando e destruindo a si próprio, em que as pessoas esquecem  as pessoas e são alimentadas por sentimentos egoístas, num ciclo vicioso que se vai repetindo sucessivamente. Para acentuar esta ideia, Garcia Marquéz criou toda uma gama de netos e tetra-netos cujos nomes se vão alterando entre Aureliano, Arcadio e Amaranta, cujos destinos se vão fotocopiando. E  que somos nós todos senão uma cambada de Aurelianos e Amarantas?

23 agosto, 2011

Igualdade

Se fôssemos estrunfes seriamos verdadeiramente todos iguais, e distinguir-nos-iam apenas pelas nossas características pessoais. 
Vamos todos comprar chapéuzinhos brancos?

22 agosto, 2011

Sobre o exército e a guerra

 "Ainda que tenham demorado mais de uma hora a passar, podia ter-se pensado que eram apenas alguns pelotões a andar às voltas, porque eram todos idênticos, filhos da mesma mãe, e todos suportavam com igual estultícia o peso das mochilas e dos polvorinhos e a vergonha das espingardas com as baionetas caladas e  tumor da obediência cega e do sentido da honra."
 Gabriel Garcia Marquéz in "Cem anos de Solidão"


Encontrei finalmente alguém que concorda comigo.

20 agosto, 2011

"Chegou o Verão!"

Nunca soube exactamente que fenómeno me levou a repetir esta frase de ano para ano, na altura em que a estação das flores e dos amores dá lugar à dos gelados e sapatos cheios de areia. O que é certo é que o prognóstico sempre veio, mas nunca aliado a questões como o calor abrasador, o ar pesado, difícil de respirar, que nos faz dar voltas e voltas na cama sem conseguir adormecer. Esse vinha sempre dias depois, como que para confirmar o meu vaticínio. Havia qualquer outra coisa, um outro sinal enviado pelo universo e captado pelas minhas antenas sensoriais.
 
Só o percebi este ano, quando, longe de casa, não encontrei Verão. As roupas decresceram, os gelados tornaram-se parte da dieta diária, mas ainda não conseguia dizer o nome dessa estranha estação. Às vezes, estamos tão perto das coisas e tão acostumados a elas que deixamos de as ver. Passam a ser objectos naturais, hábitos diários, produtos da nossa personalidade. É preciso sair dessa bolha e sentirmo-nos um pouco despidos, desprotegidos, para lhes dar a atenção e importância que outrora negligenciamos.

 Quando voltei a casa depois de tantos meses fora, era um fim-de-tarde dourado e a minha avó estava no quintal a regar as plantas. Trazia um avental pendurado no pescoço, o rosto sereno, marca do cansaço de quem cumpre as tarefas diárias. A água saía a jorros pela mangueira e era imediatamente absorvida pela terra e laranjas caídas no chão. E aí escapou, sem que para isso eu tivesse de fazer qualquer esforço: “Chegou o Verão!”.

 Afinal, tratava-se dessa  massa fina que me entra pela janela todos os fins-de-tarde, arrastada por uma brisa abafada que se entranha nas cortinas e nos lençóis – o cheiro a laranjas e terra molhada, o cheiro do Verão.


22 julho, 2011

Prisão

Uma nuvem de lágrimas abateu-se sobre a cidade, projectando sombras de bocas abertas derramando gritos mudos de terror. Mãos desesperadas atiram-se para fora dos postigos, das janelas, das frinchas das portas, tentando desesperadamente agarrar as roupas dos que passam. As suas unhas cravam-se no solo e arrancam pedras da calçada e raízes, dolorosa sinfonia que arranha os ouvidos dos que passam. Clamam por atenção, suplicam para que os olhem. Mas os de fora nem os notam. Deambulam sem destino,  ofuscados pelas imagens coloridas que se estendem sobre as habitações - imagens de raparigas jovens com roupas sofisticadas e óculos de sol em praias exóticas. São marcas de um passado que já não existe, mas que insiste em impor-se todos os dias, com um sorriso trocista, perverso, atirando-se para os transeuntes, derrubando-os sem clemência. Os outros, os que escapam, procuram no céu algum conforto, esperança última de salvação. Mas enchem-se os seus olhos de terror quando, virados para cima, descobrem esse azul eterno mutilado por arranha-céus gigantes, as grades dessa prisão.

15 junho, 2011

13 junho, 2011

Para as pessoas que conheci cá fora.


The voices of the people outside enter through the window - laughs, songs, small screams of excitement. In the kitchen, the water boils in a broken pan. The corridors are empty, the doors are closed. 

We feel the same. Excited, but empty. Excited about the future that is coming, about the ones we left and can’t wait to see again. But we are going, and we can’t come back. It’s not like we are going to follow through this corridors again, buying chocolate in a crapy-stealing-money-machine in some really old faculty, with doors impossible to open.   It’s not like we’re going to shut shuttlecocks in the middle of some green fields or play aggressive card games, become hysterical and insult each other again. 

Poznan will always be Poznan, the city that wakes’ up in excitement and falls asleep in the deepest calm; with the Stary Rynek, full of unique smells, colors and sounds; with the drunk people complaining in the trams; the soap bubbles flying in the air. But what is a Poznan without that faces we are familiar to? Without the  laugh of some small girl with a big ass? Without the evil gluton-queen and the smell of some delicious meal coming from the kitchen? Without that girl that everyone have to make an effort to take out of the room? Without the little fairy dancing barely foot on the streets? Without the eternal song of un-understandable sounds from some phonetics freak? Without the hiper-negative creature that doesn’t like nothing? Without the worries of the purple-haired multi-lingual bitch? Without the strength of the polish speaker punk? Without the joy of the tiny sensitive girl? Without the hugs of some chinese golden-hearted guy? Without the way of opening doors of some evil cat? Without the charm of a french little princess? 

Poznan will be Poznan. A city of memories, of personal stories that nobody else cares about, of special places that nobody else shares. A city of inaudible songs and invisible steps. A city that only us can see and will not be able to touch again.  Poznan will be some kind of hibernated island, covered by the highest snows, in which we will never find  our old Poznan again. But it existed. And as long as all of you remember, it will always be our Poznan, a unique secret shared by unique people.

Realidades

Me dito aquilo que foi ensonhado por outros professores, os que acreditam no faz-de-conta como forma mais séria de viver. Estreio a realidade da inexistência, a incongrudência das cu-relações sociais (im)plantadas em recipientes cheios de nada, o alimento que melhor as faz crescer.  É pena, que o ali devia chegar ao mento, em forma de viagens, físicas ou espectrais , que afinal as penas servem é para voar.

11 junho, 2011

Próximo livro?

Se ler é daquelas coisas mesmo indispensáveis na vossa vida, mas já acabaram o último livro e não sabem bem o que ler em seguida, este site pode ser uma ajuda.
Trata-se de uma base de dados de gostos de leitores, que analisa um livro de que gostaram e dá-vos uma lista de livros que é provável gostarem também.
Já adicionei imensos livros na minha lista de livros a comprar!

11 maio, 2011

Sombras

O vulto negro desceu pelas paredes da catedral, recortando-se no cinzento do fim de tarde. Não fez qualquer som ao descer, como se as suas mãos e pés não tocassem a pedra. Foi por acaso que me apercebi da sua presença, quando me virei de repente para apreciar os reflexos azuis e violeta vindos das janelas. Estaquei, e ele estacou ao mesmo tempo, sobressaltado por ter sido descoberto. Não lhe pude ver o rosto, escondido na escuridão, mas não tive qualquer dificuldade em reconhecê-lo, ligeiramente dobrado sobre si mesmo, o cabelo a saltar em todas as direcções. Era o mesmo que me tinha seguido no mercado há duas noites atrás, entre barracas vazias e silêncios, acentuados pelo contraste do borbulhar constante que se verifica durante o dia. O mesmo que se sentara no parque durante horas, a observar-me ao longe.

Aparecia sempre ao anoitecer, quando as ruas se despem de gente e cor e atingem uma espécie de cinzento esbatido, salpicado aqui e ali por holofotes de luz amarelada. Quando o som é castigado pela escassez de visão, três mil vezes ampliado, três mil vezes chicoteado nos ouvidos de quem passa. Mas nunca uma única vez ouvi um eco que fosse de um dos seus passos, um ofegar da sua respiração, um roçagar da sua roupa ao dobrar uma esquina. Com uma agilidade de gato, limitava-se a seguir-me e observar ao longe. Nunca tentou aproximar-se ou dirigir-me uma palavra. Ficava, simplesmente, e depois, tão facilmente como vinha, desaparecia.

Estamos virados um para o outro e nenhum de nós se mexe, mas sei que assim que o faça ele o fará também. Ele conhece-me por dentro, ao ínfimo pormenor, não como um amigo de longa data ou um irmão com quem partilhamos toda a vida, mas a um outro nível. Ele viajou mais fundo, aos recônditos da minha mente, e aprendeu os meus receios, as minhas reacções. Intrometeu-se nessa fracção de segundo em que o cérebro ordena ao corpo que se mova, e também ele, nessa fracção de segundo, age da mesma forma. Quando ando, segue-me, quando me detenho, pára. Se levantar um braço ele levanta o dele, se me deitar por terra ele deita-se também.  É um jogo psicológico que me assusta. Mesmo ao longe, mostra que tem poder sobre mim – se não podes esconder o teu próximo passo, como podes fugir?

Entre o momento em que os meus olhos e os dele, algures na escuridão, se cruzam, ambos sabemos que me tornei consciente da sua presença, que o reconheci. Mas mostrar-lhe que me tem sob poder seria declarar abertamente uma rendição. Com uma confiança que não tenho, decido entrar no jogo - o próximo a mexer não serei eu.

E assim ficamos, frente a frente, cada qual desafiando o outro, cada qual tentando mostrar-se mais forte. Não há qualquer exposição directa da nossa parte: não se trata de uma briga ou uma discussão filosófica. E no entanto, todas as nossas capacidades físicas e psicológicas estão em causa. Quem será o primeiro a acordar o corpo desse estado passivo, quebrar o selo de silêncio e disparar as palavras que atacarão o outro? 
É uma guerra fria sem início ou fim previsto. Como se o tempo tivesse parado naquele preciso instante, deixando-nos estáticos, à espera que os segundos voltem a fluir. Só que o tempo continua a passar, e vai levando com ele pedacinhos de nós, corroendo-nos, enfraquecendo-nos.  É uma questão de tempo até eu sucumbir ao cansaço, ao desespero, ao medo. As minhas pernas estão rígidas, das muitas horas passadas em pé. A minha cabeça pesa. Os olhos ardem. Mas do outro lado, ele continua de pé, nada mudou. Excepto talvez o céu, que começa a mudar de cor.

Em breve estaremos rodeados por turistas despreocupados que nos tomarão por atracções, e nos atirarão moedas vindas de todas as partes do mundo. Que nos vão olhar com indiscrição e rir, apontando ferozmente na nossa direcção. E aí, posto a descoberto a um público ávido de entretenimento, serei capaz de enfrentá-lo? Ou deixarei que, com um aplauso da audiência, me vença, resignando-me de joelhos à sua imposição?

O amanhecer afirma-se e reparo que o vulto negro se afastou. Não, não se mexeu, moveu-se, simplesmente. Mas atrás dele, a catedral, imperiosa, barra-lhe o caminho – seria impossível afastar-se nessa direcção. Não, ele apenas parece mais longe. Não sei exactamente como explicar, mas é isso que acontece. À medida que a manhã vai abrindo os braços para o mundo, ele parece estar cada vez mais longe. Até que por fim, quando as luzes nocturnas se apagam, ele se apaga com elas.

Olho com angústia o local onde se encontrava a miragem, e percebo finalmente. Acabo de perder uma cópia de mim mesmo, a minha sombra.

04 maio, 2011

Em relação ao Bin Laden

Como podemos considerar Homem aquele que se senta confortavelmente esperando pela morte de outro? Que homem é esse que se considera Deus, no poder de decidir pela vida e a morte? Que os exemplos do passado, tão vivos ainda, continuam a ser insuficientes para abrir os olhos a uma sociedade que segue o mesmo caminho que eles. Que a Humanidade não está em julgar e castigar o outro, mas sim em compreendê-lo e ajudá-lo a tornar-se alguém melhor.

Por isso digo aqui e para todo mundo, que a Casa Branca não é melhor que esse homem que morreu às suas mãos há duas noites atrás.

29 março, 2011

Animal Farm (A quinta dos animais), George Orwell

Quando os animais de Manor Farm se apercebem que estão a ser escravizados pelo Homem, decidem rebeliar-se e governar eles mesmos a quinta. Os porcos, que eram os mais inteligentes, rapidamente aprenderam a ler e a escrever e começaram a ditar que resoluções tomar, criando uma nova sociedade, o Animalismo, baseada na igualdade de todos os animais, em que todos os animais trabalhariam para se governar a si mesmos. No entanto, com o poder a subir-lhes à cabeça, os porcos começam a distanciar-se dos restantes, criando uma pequena ditadura.

Não será preciso dizer que este pequeno conto é uma crítica directa ao comunismo de Estaline, sendo que todos aqueles que ouviram falar deste livro o devem já saber de antemão. No entanto isto não arruina a leitura, que nos faz sentir agradavelmente surpreendidos com a forma como o autor conseguiu simplificar todas as linhas estruturais deste regime e encaixá-las nesta alegoria. Desde coisas simples como a polícia privada, e o afastamento relativamente ao exterior, considerado "o inimigo", até à alteração constante dos decretos primeiramente elaborados, de forma a servirem os seus objectivos, a forma como os animais são persuadidos a substituir as suas memórias por acontecimentos fictícios, permitindo um constante aumento de poder por parte dos porcos.

Animal Farm é, portanto, mais uma história ao estilo de Orwell, em que somos teletransportados para um mundo fictício em tudo semelhante ao nosso, onde a crítica é o principal objecto da história. É importante lembrar que este livro foi publicado em 1945, apelando para uma realidade actual, de que muitos ainda não estavam conscientes. 

No entanto, e apesar de se falar unicamente da crítica de Orwell ao regime Soviético, há que reparar que os restantes animais são continuamente conotados de estúpidos, incapazes de aprender mais que as duas ou três primeiras letras do alfabeto, e que foi a sua principal diferença relativamente aos porcos, realçando assim a importância da educação e do ensino para evitar ser corrompido e enganado. Também o final do livro deve ser tido em conta, em especial a última frase, quando se verifica que  afinal o Animalismo acabou por se tornar semelhante ao "governo" original da quinta, restando a pergunta: não estará Orwell a criticar igualmente o capitalismo ocidental?

23 março, 2011

Cansaço

É uma doença grave que pode atingir qualquer pessoa em qualquer idade ou profissão. Conheça aqui os tipos de cansaço existentes e como curá-los!

O cansaço físico. Ocorre após um esforço muscular fora do habitual - o que inclui a prática de desportos, mas também os simples passeios anuais ao ar livre, na praia ou na montanha, ou até quando se segue a namorada pela cidade toda à procura de sapatos.  

Como verificar se se sofre deste tipo de cansaço? Em consequência do desgaste a que o corpo foi exposto, o indivíduo chega a casa e atira-se para cima da cama, olhando o infinito. Por vezes, querendo dissimular o estado agravado da sua doença, liga a música ou televisão, ou pega numa revista. Se for este o caso, experimente perguntar ao individuo qual a banda que está a ouvir, ou qual o assunto do programa/artigo que está a ver/ler. O indivíduo reage dizendo palavras soltas, atabalhoadas, e depois acaba por repetir a última frase dita ou ler o título do artigo. 

 Se conhece alguem que sofre deste caso, ou se este é o seu caso, não se preocupe. Esta é uma doença de grau 5, que pode ser facilmente curada com uma boa noite de sono. Para evitar chegar a este estado de doença experimente a prática de pequenos esforços físicos regulares.

 O cansaço psicológico. Resultado do trabalho intenso do cérebro durante horas, a consulta de documentos,  a procura constante de soluções. Normalmente ligado a uma qualquer espécie de deadline.
O indivíduo que sofre desta doença é facilmente identificável por queixar-se sistematicamente que "tem de trabalhar", pelo consumo excessivo de café/bebidas energéticas, e por ficar acordado noites adentro ou acordar às 5h/6h da manhã para executar o dito trabalho. 

Mais uma vez este não é um caso de grande preocupação, visto que normalmente o trabalho tem um fim, levando a uma auto-cura. No entanto, sendo esta uma doença de grau 4, há uma maior dificuldade em alcançar o descanso.Visto que as actividades praticadas pelo sujeito são, normalmente, executadas enquanto sentados, não se regista uma actividade física do corpo. Assim, apesar de o sujeito se sentir finalmente livre do peso que tinha em cima, e de o seu cérebro estar centrado unicamente em dormir, o João Pestana não chega.  Uma boa forma de ajudar este individuo é fazê-lo ver telenovelas ou filmes americanos, para que o seu cérebro fique em estado vegetativo e descanse, mesmo que se dormir. Eventualmente, o sono acabará por vir.

O cansaço-de-não-fazer-nada, normalmente diagnosticado em fase precoce pelas mães. O sujeito que sofre deste mal é um ser uno com a cama/sofá onde permanece a tempo inteiro, e deixá-lo torna-se um esforço sobre-humano - quase como afastar as pernas uma da outra, tentando dividir o corpo em dois. As necessidades básicas são, para aquele que sofre desta doença, um desafio diário que, se tiver sorte, conseguirá ultrapassar, e sobreviver durante mais algum tempo.

Como reconhecer os sintomas desta doença? O indivíduo que sofre deste tipo de cansaço tende a dormir entre dez a doze horas diárias, sendo que por vezes o acto de dormir é repetido várias vezes no mesmo dia. O indivíduo adia durante horas a ida à casa de banho, alegando que ainda consegue aguentar. Tende a alimentar-se de cereais, bolachas, chocolates, ou outros tipos de alimentos que não precisem de preparação prévia (as pizzas encomendadas por telefone estão incluídas neste grupo).

O cansaço-de-não-fazer-nada  é uma doença do tipo 2, sendo incluído no grupo das dependência  -quanto mais tempo se passa no sofá, mais difícil se torna largá-lo.  Ultrapassar esta doença é possível, mas não sem consequências físicas graves, tais como queimaduras solares e músculos das pernas doridos. São no entanto verificadas recaídas em quase 90% dos casos, principalmente se o indivíduo não for medicado com Motivação ®.

O cansaço-feliz. O indivíduo queixa-se dos vários tipos de cansaço acima referidos, no entanto não se sente uma pressão negativa ou qualquer tipo de desmotivação. Pelo contrário, sente que todas as actividades realizadas são  úteis e sente-se realizado por as poder cumprir. Um acto comum daqueles que sofrem desta doença é abdicar do seu tempo livre em prol do trabalho, muitas vezes sacrificando os fins-de-semana e as férias, e horas extras. Muitas vezes estão associados, para além do emprego, a outros grupos onde possam executar este tipo de actividade.

Esta é uma doença de grau 1, sendo que a cura ainda não foi encontrada. Esta passa por tentar ultrapassar o cansaço físico e psicológico de que o doente se queixa, mas que acabam sempre por continuar lá devido ao excesso de actividade do mesmo. No entanto, cortar as actividades coloca o doente em estado de depressão ou mesmo cansaço-de-não-fazer-nada, sendo que neste caso se queixa de querer fazer alguma coisa mas não poder.

17 março, 2011

Resolução "à rasca"

Já estou há algum tempo para escrever sobre aquele que parece ser o assunto do momento, mas achei abster-me mais um pouco para ver no que é que tudo isto dava. E isto chegou a um ponto que não posso fugir mais ao assunto, principalmente quando vou acabar a licenciatura este ano, tornando-me parte bem activa desta "geração à rasca". 

Um dos argumentos que mais vi entre os opositores a esta luta social, é que há de facto emprego para quem queira trabalhar, e que nós, preguiçosos, é que não fazemos um esforço para o procurar. E de facto têm razão, não faltam aí lugares nas cadeias alimentares e lojas de roupa de centros comerciais. Esquecem-se, no entanto, que o que é por nós reivindicado é o direito de trabalhar na nossa área, de trabalhar naquilo para o qual estudamos e para o qual temos conhecimento. Ninguém se sente realizado por ser o trabalhador do mês no Mcdonalds, e ter a sua fotografia na parede do estabelecimento, peço desculpa. Mas mesmo que puséssemos de lado a ambição e nos contentássemos em fazer fast-food o dia todo, o nosso CV impedir-nos-ia, e a candidatura viria para trás com a justificação "demasiado qualificado".

Pois é. Continuamos a virar-nos para o lado errado, a apostar em dinamizar a falta de pensamento, a estupidificar um povo já de si estupidificado - são as Novas Oportunidades, em que se o 9º ano de escolaridade a qualquer pessoa que se mostre capaz de sintetizar a sua vida, enquanto que os outros, os que apostam no ensino regular, andam a aprender funções matemáticas, pormenores sobre o funcionamento do corpo humano, a ler os Lusíadas. Que se eu soubesse tinha guardado o diário que a minha avó me ofereceu quando aprendi a escrever, onde apontava rigorosamente todos os acontecimentos do dia. Se calhar tinha feito o ensino básico num ano, e, sem motivo para não ser aceite, acabaria a trabalhar à frente da Pepe Jeans, considerada uma pessoa lutadora, de facto. 

Mas a minha pergunta agora é, até quando é que eu poderia dobrar roupa, fazer hambúrgueres, receber dinheiro e entregar o troco? Racionalmente falando, até à idade da reforma. Socialmente falando, até me aparecerem as primeiras rugas e cabelos brancos, e me descaírem ligeiramente os seios. Porque nessas cadeias procura-se gente nova, e é esse o verdadeiro motivo pelo qual há sempre emprego nesses lugares. E agora digam-me. É isso que queremos?

Quando era pequenina, (e continuo a fazê-lo ainda hoje, mas isso é outro assunto) perguntava  sempre porque é que os jogadores de futebol e as modelos recebiam tanto dinheiro. "Porque quando chegam aos 40 anos perdem a beleza/capacidade física e deixam de ter emprego. Guess what, Sherlock? Estamos na mesma situação, e não recebemos mais por isso. Bem pelo contrário, somos vistos como  meninos mimados habituados a ter dinheirinho fácil. 

No último livro que li, As aventuras da menina má, há uma frase que não me saiu da cabeça, quando Ricardo, o protagonista, passa por uma fase de dificuldade económica e diz, desesperado, que passou a ir ao cinema apenas uma vez por semana. Pois é. Eu nunca tive dinheiro para ir ao cinema uma vez por mês sequer, mas eu é que sou da geração mimada. É um facto que existem estes casos, que não são, de todo, uma generalidade, e que podem ser automaticamente excluídos da geração à rasca , já que os  os papás lhes arranjam cunhas para todos as empresas e postos de trabalho que eles queiram. 

Se por acaso nascemos na família errada, (ou se não formos um jogador do Porto, que, com 17 anos, tem a renda da casa paga pelo clube, e ainda recebe mil euros por mês para derreter em bebidas alcoólicas nas discotecas que frequentam duas a três vezes por semana, e roupas de marcas caras que gostam de exibir em público para se sentirem melhor com a sua incapacidade intelectual avançada) somos provavelmente trabalhadores-estudantes, à espera da bolsa de estudo ou já endividados num crédito qualquer, para poder pagar os mil euros de propinas, que o desgraçado do jogador do Porto acha pouco para sobreviver durante um mês. 

E quando chegamos ao fim, descobrimos que não há emprego. Não vamos no entanto fingir que isto é uma coisa nova, quando fomos avisados desde o início.  Lembro-me  perfeitamente que desde o início do secundário que os professores nos avisavam da falta de emprego que afecta todas as áreas, de nos dizerem que se quisermos progredir teremos de ser dinâmicos, criativos, elásticos, saltar de um posto para outro, quais sapinhos à procura de insectos. E a culpa é de uma sociedade conformada, uma sociedade que continua a dar mais valor ao aspecto físico do que às qualidades, que continua a tratar o futebol como uma religião. O dinheiro continua a ser mal canalizado, os empregos continuam a ser dados a conhecidos, muitos deles sem o mínimo de conhecimentos na área, a fazer um trabalho mal feito que faz deste país, mais uma vez, um país de estúpidos.

Mas a solução, meus amigos, não passa por ir para a rua agitar umas bandeiras e cantar durante uma tarde. Isso é mais uma forma de nos fazermos de burros. Acreditarmos que fizemos alguma coisa, e voltarmos para casa contentes e realizados, e mais uma vez conformarmo-nos com a situação. Que ao governo, tanto se lhes dá como se lhes deu se saímos todos à rua ou ficamos em casa durante uma tarde. A solução, é mudarmos este sistema, mudarmos esta sociedade, deixarmos de nos fazer de estúpidos e começar a pensar e agir de verdade. 

Como? Não sei. Se soubesse, era a primeira a levantar-me para fazer a revolução.

16 março, 2011

As travessuras da menina má, Mario Vargas Llosa

Ricardo vê cumprido, muito cedo na vida, o sonho que sempre alimentara de viver em Paris. Mas o reencontro com um amor da adolescência mudará tudo. Essa jovem, inconformista, aventureira, pragmática e inquieta, arrasta-lo-á para fora do estreito mundo das suas ambições.

Quando comecei a ler este livro, tive a sensação de que era aborrecido. Parecia-me mais um romancezinho comum, com uma história centrada no casal, desde os tempos mais primórdios até ao fim das suas vidas. No entanto, à medida que progredimos na leitura, descobrimos que o autor consegue abster-se da história principal, fazendo quase um retrato social da Europa do ultimo século.  Intercalando os encontros e desencontros do casal, contempla-nos com as suas aventuras em diferentes épocas, cidades e sociedades, descrevendo-as e esmiuçando-as com todos os seus positivos e negativos: desde um Peru em revolução constante à Londres dos hippies e a Paris dos artistas.

Não nos deixemos, no entanto, enganar. Estas descrições são de tal modo agradáveis, engraçadas e deliciosas, que quase que arrancamos imediatamente em busca de um bilhete de avião para lá, se fosse possível regressar ao passado. Mais, o autor presenteia-nos, ao mesmo tempo, com um leque de personagens caricatas, muito especificas, com as quais não podemos deixar de simpatizar, cada qual à sua maneira . Mesmo com os dois protagonistas principais, a menina má, que não se cansa de nos aborrecer com as decisões que toma, e o Ricardo, por ser tão parvo e estar sempre lá para ela, mesmo quando ela não se cansa de brincar com os sentimentos dele.

Se alguma coisa há a apontar à história, será, talvez, alguma insegurança um bocadinho antes do final, em que muitos pensamentos e ideias são repetidos, que, embora se justifiquem, poderiam ter sido explorados de outra forma.

"As travessuras da menina má" é assim uma história de múltiplos rostos, múltiplas personalidades, múltiplos quadros e situações sociais. Uma história ideal para quem, mais do que histórias de amor, gosta de se perder em multiplicidade cultural.

11 março, 2011

Sentimentos Amordaçados


Amordaçamos os sentimentos que tínhamos, repelindo-os contra as paredes de um quarto sem janelas ou portas. Arrumamos as memórias nas estantes mais altas, onde nem em bicos de pés lhes poderíamos chegar. Fumamos os esqueletos cremados de antepassados, urgindo em nós uma ânsia de sucesso incontrolável. Sermos mais. Não que nós mesmos mas que dos outros, mostrando-lhes caras que muitas vezes não temos, frutos que nunca colhemos… Nós que nos achamos senhores do mundo, da razão ou da ciência, quando são eles que nos têm na palma da mão.

O sítio onde crescemos, que dita a nossa língua, que decide se daremos um beijinho, um abraço ou um aperto de mão ao próximo conhecido que encontrarmos na rua. O sítio para onde nos mudamos, os amigos que ficam para trás, os que vão ficar, num macabro sorriso que nos deita esse que pensávamos possuir. Que o mundo não é nosso mas nós dele, que por muito que diminuamos as distâncias elas continuam lá. 

As ideias que temos, os muitos “por que” e “talvez” que damos a nós mesmo, quando deitados no escuro esperamos que o sono venha. E pensamos que a acção é nossa, que tomamos determinada decisão porque quisemos, quando afinal foi ela, com a sua naturalidade e discrição. Foi ela, e não nós, que nos fez falar, nos fez saltar o abismo, que nos impediu de avançar. Que ela está em todo o lado, que tudo e todos têm as suas razões.

Esses objectos estranhos que nos poupam o esforço, que nos teleportam para o outro lado do mundo. Que quem nos controla são eles, que se nos faltam passamos a inúteis, obsoletos. Que acreditamos conversar com alguém quando na verdade interagimos com uma máquina, e morre nela toda a magia do timbre, da entoação, do ritmo. Morre nela a voz e morrem as amizades, das quais abdicamos, trocando-as lentamente por esses objectos que julgamos dominar. 

E como pode este pateta homem, esta amostra ignorante de Ser, achar que consegue controlar as emoções? Que se não o faz com as verdades da Terra, nunca o fará com as verdades do Homem. Que um dia abre-se um buraco na parede onde as guardamos, e cai a estante com as memórias, que, lá em cima arrumadas, esquecemos que possuíamos. Cai, mesmo em cima do nosso pé, amassando os ossos sem desdém, rasgando a pele nua com brutalidade. E aí estão de novo libertos, as memórias e os sentimentos, e finalmente vemo-nos como eternos Zé-Ninguém, e a eles como cavalos selvagens, indomáveis, prontos para se soltar a qualquer momento e nos dar um coice. 

Quando isso acontece, dói.

26 janeiro, 2011

Sociedade XXI

Sabemos que estamos no século XXI quando utilizamos o MSN ou o Skype para falar com alguém que está noutra divisão, quando há mais crianças a saber usar o pc do que atar os sapatos. Afinal, quem é que precisa disso?
No futuro vamos viver nos nossos pequenos quartinhos, estudar e trabalhar pela internet, encomendar as nossas refeições já prontas de fábricas de robots decididas por homens nos seus pequenos quartinhos, nos seus computadores, que não sabem muito bem o que é uma vaca, só que é um "animal"  que faz "mu", e que se se clicar nos botões 142 e 531 faz uma mistura a que se chama "carne de vaca", que tambem se deve preservar as tradições. O ser humano vai reagir ao outro como os vampiros ao sol - primeiro fica cego, depois deixa de respirar, começa a tremer, e ou foge a correr, ou morre de ansiedade, desespero e vergonha naquele mesmo instante.
Reprodução? Vai haver uma espécie de Lei que todos os homens com uma certa idade cumpram os seus exercícios mensais de doação de esperma, enviado pelos robots, claro está, que os introduzem por inseminação artificial nas mulheres, também elas a cumprir os seus deveres reprodutórios. Depois, quando o bebé nasce, é levado para o seu pequeno quartinho onde vê televisão o dia todo. De X em X tempo o robot traz-lhe comida, dá-lhe banho e muda-lhe a fralda. O seu quartinho está previamente pré-programado para fazer estes pedidos automaticamente, até que o bebé saiba usar o computador e os possa fazer ele mesmo. Então, torna-se mais um na Sociedade Inútil, pronto para usufruir da melhor forma da sua vida virtual. Da sua não-vida.

24 janeiro, 2011

Esquerdas

Pingas encarnadas escorriam-me pela perna, manchando a meia. O arranhão não era muito fundo, e a dor nem se fazia sentir. Passei um lenço de papel sobre a linha retorcida marcada na minha pele, e pressionei a fissura. O lado esquerdo. De novo. 

Olhei em volta esperando ver alguém que pudesse acusar de me ter enviado esta maldição, mas a rua estava deserta, acentuando a ideia de decadência mental com que começava a identificar-me. O meu cérebro continuava a trabalhar, no entanto, empilhando sobre a secretária da Memória um série de ficheiros que continham a palavra-chave desta estranha pesquisa. A entorse no pé. O olho infeccionado. A unha partida. Sempre do lado esquerdo. 

Mas o motor de busca não parou por aí, fazendo estranhas ligações que não soube se havia de chamar de coincidência ou paranóia. Um zero à esquerda. Um esquerdino. Nem nestes abstraccionismos se escapa este infeliz estatuto que lhe foi conferido por natureza, esta pequena maldição imposta desde sempre. Como é que um lado pode ser estratificado perante o seu irmão gémeo, o outro lado do espelho? Mas não. O "outro lado" seria sempre ele, o esquerdo, a mão usada pelos  indianos para se limparem depois de exercerem o seu exercício habitual de defecação, a mão que fica sempre caída ao longo do corpo enquanto a direita dá um passou-bem. Como se não fosse suficiente, decidiram ainda atribuir legitimidade legal à situação, e criaram um Constituição com Direitos, mas não esquerdos. Seria este o momento de a direita  fazer a sua pequena dança triunfal, de aproveitar merecidamente o pódium, a sua posição Real - mas só em  privado, porque na verdade tem dois pés esquerdos e não gosta de ser vista a dançar.

Enquanto penso, o meu olhar dirigiu-se instintivamente para o céu, onde, entre as sombras nocturnas, um C luminoso sorri para mim. Ironicamente, um vento corre para a esquerda, empurrando uma nuvem para a sua frente. Um rosto desenha-se de repente, não sei muito bem se no firmamento ou na minha mente, e nesse momento sei. O coração fica do lado esquerdo. 

19 janeiro, 2011

O homem de barbas brancas

O problema da maioria dos homens é não sonharem o suficiente. Terem sempre de separar a imaginação da realidade, não com uma cortina leve, mas com grossas paredes. A história que vos vou contar é sobre um homem com uma imaginação fértil, cujos sonhos se tornaram realidade, ou cuja realidade se mitigou em sonhos. Se são daqueles que se escondem por trás de paredes, provavelmente não vão acreditar… Esta é a história do homem todo-poderoso.

Era uma vez um homem de barbas brancas e sorriso envelhecido, que vivia sozinho algures nos subúrbios da cidade, numa casa mais velha que ele e que dificilmente se aguentava em pé quando soprava o vento. Nunca constituíra família, e por isso passava os dias no jardim do bairro, onde pelo menos não se sentia tão só. Já sabia de cor as pessoas que por ali passavam: a senhora dos gelados, sempre bem-disposta, a cantar o dia todo na sua voz rouca e desafinada; o jardineiro, de sobrolho carregado, por sempre arranjar motivos para se chatear com alguma coisa; duas ou três crianças a brincar, e as respectivas mães, a tagarelarem sobre fofocas e intrigas.

Nesse dia, o homem de barbas brancas sentou-se no banco do costume, e observou aquele panorama habitual. O mesmo cenário, as mesmas personagens, os mesmos discursos de todos os dias. Do outro lado da rua, junto a uma muralha de prédios, um cartaz publicitário apresentava a cara de um político com dentes demasiado brancos, e uma falta de rugas surpreendente para a idade. O slogan dançava à sua frente “Este é o seu destino.”

Os gritos das crianças, os risos estridentes das mães, a voz rouca da vendedora de gelados, o constante resmungar do jardineiro. O vai e vem das correrias, dos baloiços, o abrir e fechar sistemático da tesoura. “Este é o seu destino.”.

- Não… Não pode ser. – murmurou o velho, finalmente farto da rotina de sempre. Pela primeira vez, desejou que alguma coisa mudasse, que algo de incrivelmente fantástico acontecesse… E aconteceu.

Nos baloiços, dois meninos competiam para ver quem chegava mais alto. “Para o céu!”, gritava um deles, “Até à lua!”. Assim que o velho pôs os olhos nele, o baloiço desprendeu-se de um dos lados, e a criança saiu disparada em direcção às nuvens. O outro menino, assustado, tentou sair do baloiço, acabando por cair.

- Mãe, mãe, o Óscar voou, o Óscar voou!

Mas a senhora estava demasiado embrenhada na conversa para prestar atenção a disparates, e, para calar o filho, perguntou, sem sequer o olhar nos olhos, de maneira que nem notou as lágrimas que escorriam nas suas faces:

- Que foi agora? Queres um gelado, é? Vamos buscar um gelado.

O homem das barbas brancas não conseguia suportar este tipo de pessoa. Aborrecia-o que conseguissem desligar-se tão facilmente de uma coisa que ele desejava com tanta força, pelo que, a admiração e o susto pelo que se tinha passado ainda há pouco, foram rapidamente substituídos por uma sensação de cólera. “Esta mulher deve ter o cérebro congelado!”, pensou, indignado.

Não foi preciso mais nada. A mulher estacou de repente, incapaz de descolar os braços do corpo, as pernas ligadas uma à outra. E então a cabeça começou a inchar, a inchar, a inchar... Em poucos minutos, o seu corpo fundira-se num cone de bolacha, enquanto que a sua cabeça, agora com o quíntuplo do tamanho, começava a derreter, qual bola com sabor a morango.

Mas mais uma vez não tempo tempo para reagir, pois a vendedora de gelados, aproveitando a oportunidade, veio a correr ter com o menino, e pediu, sempre a cantar, como é claro:

- Não te vi pagar esse geladooo!

O menino olhou-a fixamente, aterrorizado. Não teria mais de seis anos, e provavelmente nunca tivera uma moeda na mão. As lágrimas que anteriormente lhe saltavam dos olhos, corriam-lhe agora pelas bochechas, como se de rios se tratasse.

Indignado, o homem de barbas brancas levantou-se, e desceu por entre as árvores, mas quando chegou ao sítio onde se desenrolara a cena, encontrou apenas uma fonte de um menino de pedra que deitava água pelos olhos, e um corvo velho, com um canto grosseiro, rouco e desafinado, se é que se pode dizer isso dos pássaros.

Confuso, o homem de barbas brancas olhou o cartaz à sua frente. “Este é o seu destino.”, leu, mais uma vez. Uma língua bifurcada saiu de entre os lábios do político, que lambeu os beiços lentamente. Mas de repente já não havia beiços, apenas uma pele verde-acizentada, escamosa. O lagarto olhou-o com uns grandes olhos amarelos, e soltou um grito estridente, que lhe eriçou todos os pelos do corpo. Depois, colocou uma pata do lado de fora do cartaz, e rastejou em direcção ao jardim, encolhendo progressivamente à medida que também a distância encolhia. Quando passou pelo velho, não passava de uma lagartixa de tamanho normal, que ao aproximar-se do seu sapato, fugiu na direcção oposta.

Olhou de novo a publicidade, esperando encontrar uma moldura vazia. Em vez disso, o político fitava-o de novo, como se nada tivesse acontecido. O jardim estava agora vazio. A fonte do menino continuava no mesmo sítio, mas não havia vestígio de por ali ter corrido água em muito tempo.

Duvidou se tudo aquilo teria de facto acontecido, ou se seria apenas uma partida da idade, um sinal de que a mente já não funcionava da mesma maneira. Não queria acreditar que tivesse sido verdade, mas também não queria pensar que se tratasse de uma mentira. Tinha de haver por ali mais alguém que tivesse visto alguma coisa, alguém com quem pudesse confirmar os seus receios. E então lembrou-se. Correu na relva até às árvores do outro lado do jardim, se bem que coxeasse um bocado, e não avançasse mais depressa do que outra pessoa teria avançado em passo normal, mas quando atingiu o lugar pretendido, soltou um suspiro de alívio. O jardineiro continuava lá, podando as árvores e queixando-se da vida.

- A senhora dos gelados, para onde é que ela foi? – perguntou, a respiração ofegante

- Eu sei lá! Deve ter ido embora. Volte amanhã… ou se tiver muita pressa de comer um gelado vá a um supermercado!

- Não, não, eu preciso de saber… viu as crianças? As crianças a brincar? Viu o que lhes aconteceu?

- Se alguém se magoou a responsabilidade não é da câmara. Está escrito em todas as entradas do parque, pode verificar.

O homem de barbas brancas lembrou-se então do amarelo berrante, nos grandes olhos que o fixavam minutos atrás, no grito estridente emitido por aquela boca de língua bifurcada. De certeza que ouvira aquele grito, era impossível ficar indiferente!

- E o lagarto? Diga-me que não fui o único a ver o lagarto!

- Isto é um jardim, o que não faltam são lagartixas. E não me pise a relva, se faz favor!

Essa noite pareceu-lhe mais escura, o prédio mais cinzento que o costume. Deitou-se sem jantar, e teve um sono sem sonhos. Na manhã seguinte, encontrou um menino sentado aos seus pés. Chamava-se Óscar, e dizia ter caído do céu.


Vejo-vos agora a questionar as vossas crenças, a perguntar-se quem era este homem que fazia coisas destas acontecer. O homem de barbas brancas sentava-se todos os dias no jardim, mas podia estar agora no meu lugar. Afinal, ele não passava de um contador de contos.