Não há artes menores, apenas núpcias estranhas entre o consciente e o inconsciente, a faísca maravilhosa que resulta do contacto entre a sabedoria e esse esquizofrénico que cada um traz em si e do qual, geralmente, se envergonha.
Jean Cocteau
30 Janeiro, 2010
Disse Alguém 2
28 Janeiro, 2010
Sentimentos aos pacotes
- Não quero mais - disse - devolvo-te todos os teus sentimentos. Se não os quiseres, deita-os fora.
- A sério? Mesmo? Sabes que nunca mais os tornarás a ver... É mesmo isso que queres fazer?- Sei bem o que faço! - respondeu com firmeza e rigor, mostrando a arrogância de quem quer deixar o assunto por ali.
E estendeu-me os sentimentos num saquinho de plástico, devidamente embrulhados e empacotados.
27 Janeiro, 2010
Tempo
Passou os seus dias a construir muros de tijolo. Muros mais altos que o mundo, mais altos que o tempo, que a realidade, que a razão e os sentimentos. Construiu-os, dia após dia, com cada palavra, cada gesto, cada sorriso, cada música entoada no banho, baixinho, para ninguém ouvir, cada desejo guardado entre os lábios, na praia, junto ao mar, esperando que este o leve e o traga de volta, um dia, não na forma de desejo mas no corpo da realidade. E foi amontoando tijolos, tentando sempre superar-se a si mesma, tentando chegar onde nunca ninguém chegou, tentando construir uma muralha da China privada, particular, própria e exclusiva.
Um dia levantou-se uma tempestade, e o muro que a protegia levou com uma rajada de tempo. Não um tempo qualquer, mas aquele tempo que abala todo e qualquer mundo, que traz as recordações, e os sentimentos. Esparramou-se o tempo Passado na muralha, que se desfez toda, qual jogo de Mikado a que tiram o pauzinho de baixo.
Seria suficientemente negativo se caísse apenas, deixando-a de novo no ponto em que começara, tendo de começar tudo do zero, e sujeita às investidas do exterior desse ovo em que se fechara. Acontece que os tijolos que sempre se empenhara em empilhar, eram, afinal, de vidro, que com a pressão da amargura se estilhaçaram e cairam, espetando-se nela. Na face, nas mãos, no peito e nas costas, toda ela era sangue, toda ela era vidros, toda ela era tudo esvaindo-se em nada. E o tempo entrou, deixou que chegassem até ela essas recordações e sentimentos que trazia, apertando-a ainda mais contra o chão, numa dor aguda que não a deixava respirar, gritar, ou pedir ajuda.
Assim ficou, estática e muda, sentindo-se corroer pela dor que duplicava a cada segundo. Tic tac. Mais uma vez o tempo a fazer das suas. O tempo Presente desta vez, que não deixa parar o mundo, que continuava, de facto, como se nada tivesse acontecido. "Levanta-te" diziam as vozes à sua volta, "Sê forte!". E ela ali quieta, deitada entre vidros e restos de pensamentos, sem conseguir responder.
Ao sétimo dia alguém duvidou se seria verdade, se estaria realmente acordada, se ouvia ou sentia alguma coisa. Com cuidado, e a medo, lá esticaram um dedinho e tentaram tocar uma parte da sua pele. Duro. Como pedra. Mas ao toque daquele dedo a sua boca abriu-se, inspirou uma golfada de ar, e deu um grito pesado, comprido e lento, como que deitando cá para fora tudo o que fora retido nas suas entranhas, nos seus poros, toda a dor, toda a podridão, toda a indiferença que lhe tinham prestado, todo o tempo seu inimigo, todas as recordações e pensamentos por ele trazidos, toda a arrogância e julgamento, todos os sonhos, que ali morriam, lentamente.
A seguir, ficou vazia, e também ela faleceu.
Seria suficientemente negativo se caísse apenas, deixando-a de novo no ponto em que começara, tendo de começar tudo do zero, e sujeita às investidas do exterior desse ovo em que se fechara. Acontece que os tijolos que sempre se empenhara em empilhar, eram, afinal, de vidro, que com a pressão da amargura se estilhaçaram e cairam, espetando-se nela. Na face, nas mãos, no peito e nas costas, toda ela era sangue, toda ela era vidros, toda ela era tudo esvaindo-se em nada. E o tempo entrou, deixou que chegassem até ela essas recordações e sentimentos que trazia, apertando-a ainda mais contra o chão, numa dor aguda que não a deixava respirar, gritar, ou pedir ajuda.
Assim ficou, estática e muda, sentindo-se corroer pela dor que duplicava a cada segundo. Tic tac. Mais uma vez o tempo a fazer das suas. O tempo Presente desta vez, que não deixa parar o mundo, que continuava, de facto, como se nada tivesse acontecido. "Levanta-te" diziam as vozes à sua volta, "Sê forte!". E ela ali quieta, deitada entre vidros e restos de pensamentos, sem conseguir responder.
Ao sétimo dia alguém duvidou se seria verdade, se estaria realmente acordada, se ouvia ou sentia alguma coisa. Com cuidado, e a medo, lá esticaram um dedinho e tentaram tocar uma parte da sua pele. Duro. Como pedra. Mas ao toque daquele dedo a sua boca abriu-se, inspirou uma golfada de ar, e deu um grito pesado, comprido e lento, como que deitando cá para fora tudo o que fora retido nas suas entranhas, nos seus poros, toda a dor, toda a podridão, toda a indiferença que lhe tinham prestado, todo o tempo seu inimigo, todas as recordações e pensamentos por ele trazidos, toda a arrogância e julgamento, todos os sonhos, que ali morriam, lentamente.
A seguir, ficou vazia, e também ela faleceu.
20 Janeiro, 2010
Lábios de vinho
No carrinho das compras, entre as fraldas e os frascos de maionese e ketchup, uma garrafa de vinho. Comprou-a para dar ao pai, para substituir aquela que foi buscar ao armário na semana passada, quando ele não estava. Sabe, no entanto, que vai bebê-la esta noite, e que voltará ao supermercado pela manhã, para comprar uma garrafa que substitua a garrafa de substituição, que vai beber ainda durante a tarde, obrigando-a a voltar ao supermercado antes do cair da noite.
O armário, esse, continuará vazio eternamente.
O armário, esse, continuará vazio eternamente.
11 Janeiro, 2010
Silêncio
Os seus olhares tocam-se, percorrem-se desenfreadamente, tentando matar essa sede de vivências partilhadas, tentando combater a persistência do incógnito e o desconhecido. Sorriem. Palavras formam-se nas suas mentes, enrolam-se nas suas línguas e voltam para trás, em forma de silêncio. Escutam-nas, no entanto; partilham-nas. E só os seus olhos respondem, percorrendo esse mar de possibilidades e impossibilidades que se apresentam; tocando-se, uma e outra vez, criando palavras nunca ouvidas, gritando emoções nunca sentidas. Ignoram o mundo à sua volta. Não ouvem o apito do comboio prestes a partir, na estação, uma mãe chorosa a despedir-se do seu filho, a buzina de um carro chamando a atenção a um grupo de raparigas, um piscar de olho atrevido, risinhos envergonhados. Tudo isso está longe, bem longe, algures onde o espaço e o tempo ainda existam, ainda faça sentido. Ele aproxima-se. Os lábios dela abrem-se ligeiramente, e um “olá” atrapalhado sai cá para fora, aos tropeções, matando o silêncio.
Para o Mafi-Mafi.
06 Janeiro, 2010
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