26 janeiro, 2011

Sociedade XXI

Sabemos que estamos no século XXI quando utilizamos o MSN ou o Skype para falar com alguém que está noutra divisão, quando há mais crianças a saber usar o pc do que atar os sapatos. Afinal, quem é que precisa disso?
No futuro vamos viver nos nossos pequenos quartinhos, estudar e trabalhar pela internet, encomendar as nossas refeições já prontas de fábricas de robots decididas por homens nos seus pequenos quartinhos, nos seus computadores, que não sabem muito bem o que é uma vaca, só que é um "animal"  que faz "mu", e que se se clicar nos botões 142 e 531 faz uma mistura a que se chama "carne de vaca", que tambem se deve preservar as tradições. O ser humano vai reagir ao outro como os vampiros ao sol - primeiro fica cego, depois deixa de respirar, começa a tremer, e ou foge a correr, ou morre de ansiedade, desespero e vergonha naquele mesmo instante.
Reprodução? Vai haver uma espécie de Lei que todos os homens com uma certa idade cumpram os seus exercícios mensais de doação de esperma, enviado pelos robots, claro está, que os introduzem por inseminação artificial nas mulheres, também elas a cumprir os seus deveres reprodutórios. Depois, quando o bebé nasce, é levado para o seu pequeno quartinho onde vê televisão o dia todo. De X em X tempo o robot traz-lhe comida, dá-lhe banho e muda-lhe a fralda. O seu quartinho está previamente pré-programado para fazer estes pedidos automaticamente, até que o bebé saiba usar o computador e os possa fazer ele mesmo. Então, torna-se mais um na Sociedade Inútil, pronto para usufruir da melhor forma da sua vida virtual. Da sua não-vida.

24 janeiro, 2011

Esquerdas

Pingas encarnadas escorriam-me pela perna, manchando a meia. O arranhão não era muito fundo, e a dor nem se fazia sentir. Passei um lenço de papel sobre a linha retorcida marcada na minha pele, e pressionei a fissura. O lado esquerdo. De novo. 

Olhei em volta esperando ver alguém que pudesse acusar de me ter enviado esta maldição, mas a rua estava deserta, acentuando a ideia de decadência mental com que começava a identificar-me. O meu cérebro continuava a trabalhar, no entanto, empilhando sobre a secretária da Memória um série de ficheiros que continham a palavra-chave desta estranha pesquisa. A entorse no pé. O olho infeccionado. A unha partida. Sempre do lado esquerdo. 

Mas o motor de busca não parou por aí, fazendo estranhas ligações que não soube se havia de chamar de coincidência ou paranóia. Um zero à esquerda. Um esquerdino. Nem nestes abstraccionismos se escapa este infeliz estatuto que lhe foi conferido por natureza, esta pequena maldição imposta desde sempre. Como é que um lado pode ser estratificado perante o seu irmão gémeo, o outro lado do espelho? Mas não. O "outro lado" seria sempre ele, o esquerdo, a mão usada pelos  indianos para se limparem depois de exercerem o seu exercício habitual de defecação, a mão que fica sempre caída ao longo do corpo enquanto a direita dá um passou-bem. Como se não fosse suficiente, decidiram ainda atribuir legitimidade legal à situação, e criaram um Constituição com Direitos, mas não esquerdos. Seria este o momento de a direita  fazer a sua pequena dança triunfal, de aproveitar merecidamente o pódium, a sua posição Real - mas só em  privado, porque na verdade tem dois pés esquerdos e não gosta de ser vista a dançar.

Enquanto penso, o meu olhar dirigiu-se instintivamente para o céu, onde, entre as sombras nocturnas, um C luminoso sorri para mim. Ironicamente, um vento corre para a esquerda, empurrando uma nuvem para a sua frente. Um rosto desenha-se de repente, não sei muito bem se no firmamento ou na minha mente, e nesse momento sei. O coração fica do lado esquerdo. 

19 janeiro, 2011

O homem de barbas brancas

O problema da maioria dos homens é não sonharem o suficiente. Terem sempre de separar a imaginação da realidade, não com uma cortina leve, mas com grossas paredes. A história que vos vou contar é sobre um homem com uma imaginação fértil, cujos sonhos se tornaram realidade, ou cuja realidade se mitigou em sonhos. Se são daqueles que se escondem por trás de paredes, provavelmente não vão acreditar… Esta é a história do homem todo-poderoso.

Era uma vez um homem de barbas brancas e sorriso envelhecido, que vivia sozinho algures nos subúrbios da cidade, numa casa mais velha que ele e que dificilmente se aguentava em pé quando soprava o vento. Nunca constituíra família, e por isso passava os dias no jardim do bairro, onde pelo menos não se sentia tão só. Já sabia de cor as pessoas que por ali passavam: a senhora dos gelados, sempre bem-disposta, a cantar o dia todo na sua voz rouca e desafinada; o jardineiro, de sobrolho carregado, por sempre arranjar motivos para se chatear com alguma coisa; duas ou três crianças a brincar, e as respectivas mães, a tagarelarem sobre fofocas e intrigas.

Nesse dia, o homem de barbas brancas sentou-se no banco do costume, e observou aquele panorama habitual. O mesmo cenário, as mesmas personagens, os mesmos discursos de todos os dias. Do outro lado da rua, junto a uma muralha de prédios, um cartaz publicitário apresentava a cara de um político com dentes demasiado brancos, e uma falta de rugas surpreendente para a idade. O slogan dançava à sua frente “Este é o seu destino.”

Os gritos das crianças, os risos estridentes das mães, a voz rouca da vendedora de gelados, o constante resmungar do jardineiro. O vai e vem das correrias, dos baloiços, o abrir e fechar sistemático da tesoura. “Este é o seu destino.”.

- Não… Não pode ser. – murmurou o velho, finalmente farto da rotina de sempre. Pela primeira vez, desejou que alguma coisa mudasse, que algo de incrivelmente fantástico acontecesse… E aconteceu.

Nos baloiços, dois meninos competiam para ver quem chegava mais alto. “Para o céu!”, gritava um deles, “Até à lua!”. Assim que o velho pôs os olhos nele, o baloiço desprendeu-se de um dos lados, e a criança saiu disparada em direcção às nuvens. O outro menino, assustado, tentou sair do baloiço, acabando por cair.

- Mãe, mãe, o Óscar voou, o Óscar voou!

Mas a senhora estava demasiado embrenhada na conversa para prestar atenção a disparates, e, para calar o filho, perguntou, sem sequer o olhar nos olhos, de maneira que nem notou as lágrimas que escorriam nas suas faces:

- Que foi agora? Queres um gelado, é? Vamos buscar um gelado.

O homem das barbas brancas não conseguia suportar este tipo de pessoa. Aborrecia-o que conseguissem desligar-se tão facilmente de uma coisa que ele desejava com tanta força, pelo que, a admiração e o susto pelo que se tinha passado ainda há pouco, foram rapidamente substituídos por uma sensação de cólera. “Esta mulher deve ter o cérebro congelado!”, pensou, indignado.

Não foi preciso mais nada. A mulher estacou de repente, incapaz de descolar os braços do corpo, as pernas ligadas uma à outra. E então a cabeça começou a inchar, a inchar, a inchar... Em poucos minutos, o seu corpo fundira-se num cone de bolacha, enquanto que a sua cabeça, agora com o quíntuplo do tamanho, começava a derreter, qual bola com sabor a morango.

Mas mais uma vez não tempo tempo para reagir, pois a vendedora de gelados, aproveitando a oportunidade, veio a correr ter com o menino, e pediu, sempre a cantar, como é claro:

- Não te vi pagar esse geladooo!

O menino olhou-a fixamente, aterrorizado. Não teria mais de seis anos, e provavelmente nunca tivera uma moeda na mão. As lágrimas que anteriormente lhe saltavam dos olhos, corriam-lhe agora pelas bochechas, como se de rios se tratasse.

Indignado, o homem de barbas brancas levantou-se, e desceu por entre as árvores, mas quando chegou ao sítio onde se desenrolara a cena, encontrou apenas uma fonte de um menino de pedra que deitava água pelos olhos, e um corvo velho, com um canto grosseiro, rouco e desafinado, se é que se pode dizer isso dos pássaros.

Confuso, o homem de barbas brancas olhou o cartaz à sua frente. “Este é o seu destino.”, leu, mais uma vez. Uma língua bifurcada saiu de entre os lábios do político, que lambeu os beiços lentamente. Mas de repente já não havia beiços, apenas uma pele verde-acizentada, escamosa. O lagarto olhou-o com uns grandes olhos amarelos, e soltou um grito estridente, que lhe eriçou todos os pelos do corpo. Depois, colocou uma pata do lado de fora do cartaz, e rastejou em direcção ao jardim, encolhendo progressivamente à medida que também a distância encolhia. Quando passou pelo velho, não passava de uma lagartixa de tamanho normal, que ao aproximar-se do seu sapato, fugiu na direcção oposta.

Olhou de novo a publicidade, esperando encontrar uma moldura vazia. Em vez disso, o político fitava-o de novo, como se nada tivesse acontecido. O jardim estava agora vazio. A fonte do menino continuava no mesmo sítio, mas não havia vestígio de por ali ter corrido água em muito tempo.

Duvidou se tudo aquilo teria de facto acontecido, ou se seria apenas uma partida da idade, um sinal de que a mente já não funcionava da mesma maneira. Não queria acreditar que tivesse sido verdade, mas também não queria pensar que se tratasse de uma mentira. Tinha de haver por ali mais alguém que tivesse visto alguma coisa, alguém com quem pudesse confirmar os seus receios. E então lembrou-se. Correu na relva até às árvores do outro lado do jardim, se bem que coxeasse um bocado, e não avançasse mais depressa do que outra pessoa teria avançado em passo normal, mas quando atingiu o lugar pretendido, soltou um suspiro de alívio. O jardineiro continuava lá, podando as árvores e queixando-se da vida.

- A senhora dos gelados, para onde é que ela foi? – perguntou, a respiração ofegante

- Eu sei lá! Deve ter ido embora. Volte amanhã… ou se tiver muita pressa de comer um gelado vá a um supermercado!

- Não, não, eu preciso de saber… viu as crianças? As crianças a brincar? Viu o que lhes aconteceu?

- Se alguém se magoou a responsabilidade não é da câmara. Está escrito em todas as entradas do parque, pode verificar.

O homem de barbas brancas lembrou-se então do amarelo berrante, nos grandes olhos que o fixavam minutos atrás, no grito estridente emitido por aquela boca de língua bifurcada. De certeza que ouvira aquele grito, era impossível ficar indiferente!

- E o lagarto? Diga-me que não fui o único a ver o lagarto!

- Isto é um jardim, o que não faltam são lagartixas. E não me pise a relva, se faz favor!

Essa noite pareceu-lhe mais escura, o prédio mais cinzento que o costume. Deitou-se sem jantar, e teve um sono sem sonhos. Na manhã seguinte, encontrou um menino sentado aos seus pés. Chamava-se Óscar, e dizia ter caído do céu.


Vejo-vos agora a questionar as vossas crenças, a perguntar-se quem era este homem que fazia coisas destas acontecer. O homem de barbas brancas sentava-se todos os dias no jardim, mas podia estar agora no meu lugar. Afinal, ele não passava de um contador de contos.

13 janeiro, 2011

Exigencias

Somos sempre demasiado exigentes, sentimo-nos sempre demasiado evidentes. Procuramos pessoas com ideias das mesmas cores, com os mesmos sorrisos e os mesmo choros. Tememos aqueles que são mais fortes que nós, ignoramos aqueles que nos parecem menores. Rodeamo-nos de gente que não queremos ver. "Olá, tudo bem, como estás, o que tens feito?", ao passar uma esquina e uma pessoa esquecida. Falha-nos o nome, está na ponta da língua, mas de repente somos quase amigos. Trocamos olhares idiotas, vazios de sentido, e depois seguimos caminho.

Somos pessoas mas apoiamo-nos em objectos. Depositamos neles as nossas recordações, os sonhos falhados, os fracassos superados. Uma pessoa vale pelo que tem mais pelo que é: ou o 20 a português, ou a namorada bonita, ou o cliché do bom carro e das calças Pepe Jeans. Falta-nos a música do antigamente, as viagens de pé descalço, o bichinho da revolta. Falta-nos a coragem para pensar, falta-nos a vontade de viver no auge, falta-nos a falta de medo de falhar.