22 agosto, 2010

Ela

Queriam os ventos tocar.lhe os cabelos, queria o mar beijar os seus pés. Queriam os trovões conseguir o efeito do seu olhar zangado, queria o sol igualar o brilho do seu sorriso. Queriam os dias correr mais devagar, para não a ver desaparecer na noite, e queria a noite que fosse sempre lua cheia para banhá-la numa luz prateada.

Delicada de sentimentos, mas forte de vontade, deixa marcas profundas por onde passa, naqueles que beija e que adora, naqueles por quem luta e por quem chora. É nela que se escondem as nuvens negras do inverno, que solta quando a ferem. É nela que se deita o doce perfume da primavera, que vai espalhando com a alegria de uma fada.

É ela. Princesa encantada num tempo de bandidos e traficantes de droga. É ela.

Para a Nalu

16 agosto, 2010

Crimes

Que tipo de crime cometeu esse ser alucinado, ao deixar escorrer pela garganta o líquido da felicidade instantânea, ao deixar os lábios sugar o nevoeiro causado pela mãe natureza, erva do diabo queimada. Que tipo de crime cometeu, ao deixar que a voz lhe falte e as mãos lhe tremam, consequência da sua facção incompleta, da sua necessidade de se sentir maior, mais veloz que qualquer outro?

E que tipo de homem é este, que condena outro por ser feliz? Por viver não entre quatro paredes, mas entre os quatro cantos da terra, sujeito a uma outra lei, a lei da vida. Que sonho destrói outro sonho e com que vontade se rouba vontade?


Inventou o Homem a moral, o direito, e a ética, para depois os usar como pretexto para negar liberdade e destruir sorrisos.

03 agosto, 2010

1984, George Orwell




"- Quantos dedos vês aqui Winston?
- Quatro.
- E se o Partido disser que não são quatro, mas cinco... quantos são?
- Quatro.
A palavra acabou numa exclamação de dor. (...) O suor brotara de todo o corpo de Winston. O ar rasgava-lhe os pulmões e saía de novo em profundos gemidos que nem mesmo rilhando os dentes ele conseguia calar.
(...)
-
Estás aqui porque fracassaste em humildade, em autodisciplina. Não queres fazer o acto de submissão que é o preço da saúde mental. Preferiste ser louco, minoria de um. "


1984. Estou a tentar escrever sobre este livro, e parece que me faltam as palavras. Como se essa data encerrasse tudo em si mesma, e a simples junção desses quatro algarismos trouxesse a compreensão.

Este livro foi publicado por volta dos anos 50, numa espécie de previsão do que seria a sociedade do futuro, numa notável crítica ao caminho que a sociedade da época estava a tomar.

Dito assim, parece um daqueles livros chatos, muito rebuscados e difíceis de ler. Não é. Pelo contrário, apresenta-nos uma história engraçada, de um homem que começa a sentir-se revoltado com o mundo em que vive. Um mundo em que o Big Brother, ser omnisciente e omnipresente, "zela" pela população. E com isto quer-se dizer que ele está atento a cada movimento de cada pessoa, 24 horas por dia, não deixando que saiam da normalidade, ou, por outras palavras, que pensem por si próprias. É o pior tipo de sociedade possivel: não há leis concretas que digam o que se deve ou não fazer. Cada um deve presumir o que pode ser encarado com um acto de prevaricação.

O mais incrível é vermos como este livro, de certa forma um completo exagero, pode ser tão coincidente com a realidade actual. O culto da televisão, sempre ligada, sempre a transmitir conteúdos que devem ser aceites como verdades, porque "ignorância é poder"; a vigiância constante; os padrões de normalidade e a repulsa por actos excêntricos; o culto da beleza; o culto da guerra, não para conseguir um fim específico, mas apenas porque "guerra é paz".

Em 1984 os países estão divididos em três grandes potências, que se tentam continuamente superiorizar, uma crítica à guerra fria que então se vivia, e que dividia o mundo em dois blocos, mas que não está nada longe da realidade actual, em que EUA, União Europeia, e China se destacam, correndo pela supremacia do mundo.

Mas tudo isto, repito, se pode descortinar por trás de uma história interessante e que chega a ser engraçada até, com os novos termos e objectos inventados por George Orwell. 1984 é um livro que todas as pessoas deveriam ler, a alguma altura das suas vidas, para reflectirem no significado da sociedade e da nossa própria existência.