24 janeiro, 2011

Esquerdas

Pingas encarnadas escorriam-me pela perna, manchando a meia. O arranhão não era muito fundo, e a dor nem se fazia sentir. Passei um lenço de papel sobre a linha retorcida marcada na minha pele, e pressionei a fissura. O lado esquerdo. De novo. 

Olhei em volta esperando ver alguém que pudesse acusar de me ter enviado esta maldição, mas a rua estava deserta, acentuando a ideia de decadência mental com que começava a identificar-me. O meu cérebro continuava a trabalhar, no entanto, empilhando sobre a secretária da Memória um série de ficheiros que continham a palavra-chave desta estranha pesquisa. A entorse no pé. O olho infeccionado. A unha partida. Sempre do lado esquerdo. 

Mas o motor de busca não parou por aí, fazendo estranhas ligações que não soube se havia de chamar de coincidência ou paranóia. Um zero à esquerda. Um esquerdino. Nem nestes abstraccionismos se escapa este infeliz estatuto que lhe foi conferido por natureza, esta pequena maldição imposta desde sempre. Como é que um lado pode ser estratificado perante o seu irmão gémeo, o outro lado do espelho? Mas não. O "outro lado" seria sempre ele, o esquerdo, a mão usada pelos  indianos para se limparem depois de exercerem o seu exercício habitual de defecação, a mão que fica sempre caída ao longo do corpo enquanto a direita dá um passou-bem. Como se não fosse suficiente, decidiram ainda atribuir legitimidade legal à situação, e criaram um Constituição com Direitos, mas não esquerdos. Seria este o momento de a direita  fazer a sua pequena dança triunfal, de aproveitar merecidamente o pódium, a sua posição Real - mas só em  privado, porque na verdade tem dois pés esquerdos e não gosta de ser vista a dançar.

Enquanto penso, o meu olhar dirigiu-se instintivamente para o céu, onde, entre as sombras nocturnas, um C luminoso sorri para mim. Ironicamente, um vento corre para a esquerda, empurrando uma nuvem para a sua frente. Um rosto desenha-se de repente, não sei muito bem se no firmamento ou na minha mente, e nesse momento sei. O coração fica do lado esquerdo. 

19 janeiro, 2011

O homem de barbas brancas

O problema da maioria dos homens é não sonharem o suficiente. Terem sempre de separar a imaginação da realidade, não com uma cortina leve, mas com grossas paredes. A história que vos vou contar é sobre um homem com uma imaginação fértil, cujos sonhos se tornaram realidade, ou cuja realidade se mitigou em sonhos. Se são daqueles que se escondem por trás de paredes, provavelmente não vão acreditar… Esta é a história do homem todo-poderoso.

Era uma vez um homem de barbas brancas e sorriso envelhecido, que vivia sozinho algures nos subúrbios da cidade, numa casa mais velha que ele e que dificilmente se aguentava em pé quando soprava o vento. Nunca constituíra família, e por isso passava os dias no jardim do bairro, onde pelo menos não se sentia tão só. Já sabia de cor as pessoas que por ali passavam: a senhora dos gelados, sempre bem-disposta, a cantar o dia todo na sua voz rouca e desafinada; o jardineiro, de sobrolho carregado, por sempre arranjar motivos para se chatear com alguma coisa; duas ou três crianças a brincar, e as respectivas mães, a tagarelarem sobre fofocas e intrigas.

Nesse dia, o homem de barbas brancas sentou-se no banco do costume, e observou aquele panorama habitual. O mesmo cenário, as mesmas personagens, os mesmos discursos de todos os dias. Do outro lado da rua, junto a uma muralha de prédios, um cartaz publicitário apresentava a cara de um político com dentes demasiado brancos, e uma falta de rugas surpreendente para a idade. O slogan dançava à sua frente “Este é o seu destino.”

Os gritos das crianças, os risos estridentes das mães, a voz rouca da vendedora de gelados, o constante resmungar do jardineiro. O vai e vem das correrias, dos baloiços, o abrir e fechar sistemático da tesoura. “Este é o seu destino.”.

- Não… Não pode ser. – murmurou o velho, finalmente farto da rotina de sempre. Pela primeira vez, desejou que alguma coisa mudasse, que algo de incrivelmente fantástico acontecesse… E aconteceu.

Nos baloiços, dois meninos competiam para ver quem chegava mais alto. “Para o céu!”, gritava um deles, “Até à lua!”. Assim que o velho pôs os olhos nele, o baloiço desprendeu-se de um dos lados, e a criança saiu disparada em direcção às nuvens. O outro menino, assustado, tentou sair do baloiço, acabando por cair.

- Mãe, mãe, o Óscar voou, o Óscar voou!

Mas a senhora estava demasiado embrenhada na conversa para prestar atenção a disparates, e, para calar o filho, perguntou, sem sequer o olhar nos olhos, de maneira que nem notou as lágrimas que escorriam nas suas faces:

- Que foi agora? Queres um gelado, é? Vamos buscar um gelado.

O homem das barbas brancas não conseguia suportar este tipo de pessoa. Aborrecia-o que conseguissem desligar-se tão facilmente de uma coisa que ele desejava com tanta força, pelo que, a admiração e o susto pelo que se tinha passado ainda há pouco, foram rapidamente substituídos por uma sensação de cólera. “Esta mulher deve ter o cérebro congelado!”, pensou, indignado.

Não foi preciso mais nada. A mulher estacou de repente, incapaz de descolar os braços do corpo, as pernas ligadas uma à outra. E então a cabeça começou a inchar, a inchar, a inchar... Em poucos minutos, o seu corpo fundira-se num cone de bolacha, enquanto que a sua cabeça, agora com o quíntuplo do tamanho, começava a derreter, qual bola com sabor a morango.

Mas mais uma vez não tempo tempo para reagir, pois a vendedora de gelados, aproveitando a oportunidade, veio a correr ter com o menino, e pediu, sempre a cantar, como é claro:

- Não te vi pagar esse geladooo!

O menino olhou-a fixamente, aterrorizado. Não teria mais de seis anos, e provavelmente nunca tivera uma moeda na mão. As lágrimas que anteriormente lhe saltavam dos olhos, corriam-lhe agora pelas bochechas, como se de rios se tratasse.

Indignado, o homem de barbas brancas levantou-se, e desceu por entre as árvores, mas quando chegou ao sítio onde se desenrolara a cena, encontrou apenas uma fonte de um menino de pedra que deitava água pelos olhos, e um corvo velho, com um canto grosseiro, rouco e desafinado, se é que se pode dizer isso dos pássaros.

Confuso, o homem de barbas brancas olhou o cartaz à sua frente. “Este é o seu destino.”, leu, mais uma vez. Uma língua bifurcada saiu de entre os lábios do político, que lambeu os beiços lentamente. Mas de repente já não havia beiços, apenas uma pele verde-acizentada, escamosa. O lagarto olhou-o com uns grandes olhos amarelos, e soltou um grito estridente, que lhe eriçou todos os pelos do corpo. Depois, colocou uma pata do lado de fora do cartaz, e rastejou em direcção ao jardim, encolhendo progressivamente à medida que também a distância encolhia. Quando passou pelo velho, não passava de uma lagartixa de tamanho normal, que ao aproximar-se do seu sapato, fugiu na direcção oposta.

Olhou de novo a publicidade, esperando encontrar uma moldura vazia. Em vez disso, o político fitava-o de novo, como se nada tivesse acontecido. O jardim estava agora vazio. A fonte do menino continuava no mesmo sítio, mas não havia vestígio de por ali ter corrido água em muito tempo.

Duvidou se tudo aquilo teria de facto acontecido, ou se seria apenas uma partida da idade, um sinal de que a mente já não funcionava da mesma maneira. Não queria acreditar que tivesse sido verdade, mas também não queria pensar que se tratasse de uma mentira. Tinha de haver por ali mais alguém que tivesse visto alguma coisa, alguém com quem pudesse confirmar os seus receios. E então lembrou-se. Correu na relva até às árvores do outro lado do jardim, se bem que coxeasse um bocado, e não avançasse mais depressa do que outra pessoa teria avançado em passo normal, mas quando atingiu o lugar pretendido, soltou um suspiro de alívio. O jardineiro continuava lá, podando as árvores e queixando-se da vida.

- A senhora dos gelados, para onde é que ela foi? – perguntou, a respiração ofegante

- Eu sei lá! Deve ter ido embora. Volte amanhã… ou se tiver muita pressa de comer um gelado vá a um supermercado!

- Não, não, eu preciso de saber… viu as crianças? As crianças a brincar? Viu o que lhes aconteceu?

- Se alguém se magoou a responsabilidade não é da câmara. Está escrito em todas as entradas do parque, pode verificar.

O homem de barbas brancas lembrou-se então do amarelo berrante, nos grandes olhos que o fixavam minutos atrás, no grito estridente emitido por aquela boca de língua bifurcada. De certeza que ouvira aquele grito, era impossível ficar indiferente!

- E o lagarto? Diga-me que não fui o único a ver o lagarto!

- Isto é um jardim, o que não faltam são lagartixas. E não me pise a relva, se faz favor!

Essa noite pareceu-lhe mais escura, o prédio mais cinzento que o costume. Deitou-se sem jantar, e teve um sono sem sonhos. Na manhã seguinte, encontrou um menino sentado aos seus pés. Chamava-se Óscar, e dizia ter caído do céu.


Vejo-vos agora a questionar as vossas crenças, a perguntar-se quem era este homem que fazia coisas destas acontecer. O homem de barbas brancas sentava-se todos os dias no jardim, mas podia estar agora no meu lugar. Afinal, ele não passava de um contador de contos.

13 janeiro, 2011

Exigencias

Somos sempre demasiado exigentes, sentimo-nos sempre demasiado evidentes. Procuramos pessoas com ideias das mesmas cores, com os mesmos sorrisos e os mesmo choros. Tememos aqueles que são mais fortes que nós, ignoramos aqueles que nos parecem menores. Rodeamo-nos de gente que não queremos ver. "Olá, tudo bem, como estás, o que tens feito?", ao passar uma esquina e uma pessoa esquecida. Falha-nos o nome, está na ponta da língua, mas de repente somos quase amigos. Trocamos olhares idiotas, vazios de sentido, e depois seguimos caminho.

Somos pessoas mas apoiamo-nos em objectos. Depositamos neles as nossas recordações, os sonhos falhados, os fracassos superados. Uma pessoa vale pelo que tem mais pelo que é: ou o 20 a português, ou a namorada bonita, ou o cliché do bom carro e das calças Pepe Jeans. Falta-nos a música do antigamente, as viagens de pé descalço, o bichinho da revolta. Falta-nos a coragem para pensar, falta-nos a vontade de viver no auge, falta-nos a falta de medo de falhar.

21 dezembro, 2010

Concurso de Escrita - vencedor

 Já há uns tempos foi anunciado aqui no blogue a parceria com o concurso de contos do "Que a Estante nos Caia em Cima". Como prometido é devido, aqui fica o conto do vencedor, que pode ser encontrado neste cantinho.

o carrossel (de João Rogaciano)

30 novembro, 2010

Velhice


A sala estava forrada a papel amarelo, com desenhos de flores negras, as paredes enfeitadas com quadros de mortos e um espelho árabe, recordação de uma viagem que alguém fizera por outro mundo. Ao canto, repousava uma secretária atafulhada de cartas abertas e por abrir, de respostas rabiscadas à pressa, por mãos que no final desistiram delas ou simplesmente as esqueceram. Havia uma grande estante cheia de discos antigos, acompanhada pelo gira-discos que lhes dava vida durante tardes a fio, quebrando a rotina e o dia-a-dia. E a poltrona, a poltrona verde onde se sentava a ouvi-los tocar, a poltrona que encontrara na rua, quase nova, e que trouxera para casa com o intuito de renovar, a poltrona que nunca chegara a ser restaurada, que mantinha as nódoas no assento e os arranhões de um gato que nunca tivera num dos braços.

Pelo menos era assim que se recordava as coisas. Afundado nessa mesma poltrona, fixava a janela há tanto tempo que talvez o ambiente à sua volta já tivesse mudado. Talvez alguém já tivesse arrumado as cartas, talvez alguém tivesse levado os discos. Talvez o papel de parede fosse agora castanho, resultado do desgaste do tempo, talvez tivessem comprado um televisor e violado o espaço que outra pertencera ao gira-discos.

 Lá fora, as vidas passam continuamente, deixando ficar um rasto de si mesmas entre os quatro cantos da tela. São telefonemas lassos de homens de fato a caminho do escritório, são pedaços de abraços de casais apaixonados sem idade para se apaixonar, são risos  despreocupados de melhores amigos que em poucos anos serão desconhecidos. São tantos, e mesmo assim parece que são os mesmos que por ali passam todos os dias, sempre com o mesmo aspecto, as mesmas conversas, os mesmos gestos.

E por momentos gostava de trocar as pantufas por sapatos e sair à rua, e voltar atrás, a esse tempo em que não havia preocupações, que tinha força para se levantar da poltrona, que tinha conversas desprovidas de sentido ou intuito. Em que não tinha perdido a sua crença mundo e na sociedade, em que ainda valia a pena respirar. Porque agora, estar lá fora ou não estar, era a mesma coisa – tal como ele, todos eles mantinham o dia-a-dia de sempre, todos eles restringiam o seu olhar para o mundo a uma janela pequenina, a espreitar a vida dos outros descaradamente, abandonando a sua. Não. Para isso preferia deixar-se ficar, esperar que a morte chegasse e lhe apontasse outra coisa.

Foi então que, com um baque, o espelho árabe se estilhaçou no chão, multiplicando a sala em mil pedacinhos tortos, espalhados pela carpete. Baixou o olhar pela primeira vez em tanto tempo, e um foi assaltado por um arrepio frio. Nos pedaços desalinhados ao longo da carpete, não encontrou rugas ou cabelos brancos. Apenas um olhar angustiado, enfeitado com borbulhas vermelhas, juvenis. Tinha a vida toda à sua frente.

25 novembro, 2010

O Castelo - Franz kafka

Este livro retrata a história de um homem, K., que chega a uma aldeia onde pretende trabalhar como agrimensor, a mando do Castelo, onde se encontra o centro do poder. Assim, K. tenta, ao longo da narrativa, chegar ao Castelo, sendo que estas parecem nunca ter sucesso, e o Castelo parece cada vez mais difícil de alcançar.

Confesso que me custou, que demorou, mas finalmente acabei este livro, do qual não soube falar durante alguns dias, enquanto não tive tempo para reflectir nas 342 páginas que acabavam de passar pelos meus olhos.

Não porque não tenha gostado, se é que é aqui possível empregar os termos "gosto" ou "não gosto", mas porque é um livro complicado, estranho, psicadélico, que é bastante confuso nos diálogos e relatos das personagens, exigindo de nós bastante concentração, e que me fazia, por vezes, ficar algum tempo a meditar em tudo aquilo antes de conseguir avançar na leitura.

Como história em si, pode dizer-se que não faz qualquer sentido, o que pode ser completamente frustrante, e nos leva, até, a pensar em desistir do livro - o que poderia ser apontado como uma falha do autor, se não se desse o caso de ter sido publicado após a sua morte, pelo que, provavelmente, a história foi escrita para si próprio, e, como em todos os autores clássicos, não haver uma preocupação em agradar ao leitor, mas antes de fazer passar ideias.

De facto, como em todos os romances Kafkianos, há muito mais para além da própria historia; toda uma serie de pormenores que nos remetem para determinadas situações da actualidade, crítica intemporal a uma sociedade demasiado louca e demasiado estranha para ser compreendida. Uma sociedade em que cada um vive o seu dia-a-dia continuamente, conformado com a realidade em que está inserido.

A política, a dificuldade de chegar ao sistema, a indisponibilidade dos políticos, sempre demasiado ocupados com algo que desconhecemos. As pessoas, a preocupação em agradar aos outros, a facilidade com que se fazem e desfazem relações, a forma como se usam pessoas para atingir determinados interesses. A obsessão pelo trabalho, a importância dos cargos, das roupas, do ser bem visto. Tudo isto são temas que vão sendo abordados quase sem nos darmos conta, representando uma sociedade deslocada do pensamento lógico e da razão.

22 novembro, 2010

Relembrando os motivos de querer ser jornalista

O Primeiro de Janeiro
Alberto Pimentel

O Primeiro de Janeiro é como os viajantes que teem de partir ao romper da manhã: passa a noite a fazer a mala.

Quem vae de jornada prepara-se para todas as eventualidades: mette ao sacco seis lenços supranumerarios para uma constipação; a casaca para uma soirée inesperada; um frasco d'agua sedativa para uma nevralgia; dois livros para uma hora d'aborrecimento; os sapatos de borracha para um dia de chuva. Ainda como o touriste, o Primeiro de Janeiro dispõe-se a poder satisfazer todas as reclamações que o assaltem no caminho: para os impacientes leva na mala os telegrammas, para os negociantes as cotações, para os politicos o artigo, para os ociosos o folhetim, para os alviçareiros as noticias, para os interessados os annuncios, e para as senhoras as modas.

 Os passageiros vão sentados no vehiculo; elle vae a correr pelo caminho. Quando o comboyo parte, apparece-lhes nas Devesas; quando chega a Aveiro, encontram-no na estação; quando passa em Coimbra, o Primeiro de Janeiro salta aos vagões e diz aos viajantes engalfinhando-se na portinhola: Aqui estou!

Que prodigio de ubiquidade é este? Como é que o jornal chega primeiro que o homem! Ah! é porque o homem é o barro, e pesa, e o jornal o pensamento, e vôa. Nasceu da faisca electrica e do vapor; é irmão gemeo da locomotiva. O comboyo leva o homem; o jornal o pensamento. O motor d'um é a machina; o do outro o espirito humano. São os passaros da civilisação, as aguias do progresso. Por isso Arsenio Houssaye disse: «O jornal é a ave errante que atravessa o mundo: prendei-lhe a vossa ideia á asa, e a vossa ideia florirá nos mais remotos desertos.»

Nada ha menos complicado que o jornal e mais complexo que elle: é a sociedade, a raça, a civilisação e o seculo. É o thermometro que mostra o grau da vitalidade popular, a lente que reproduz a lucta das gerações, o melhor historiador e a melhor historia.

Poderemos chamar ao Genesis o jornal da creação do mundo, o que nos leva a crêr que esta manifestação do pensamento publico não data unicamente dos tempos de Guttemberg, mas vae pelas idades a dentro procurar origem no fiat creador que deu fórma e movimento ao nada. Á medida que a intelligencia do homem ia profundando a sonda n'este mar de bellezas infinitas que o verbo creador espraiou entre as balisas do universo, e se foram arando os mares, e desbravando as florestas, e povoando cidades e consolidando imperios, a vida das nações tomou um incremento que se não poderia registar em longas chronicas, como os commettimentos da antiguidade, senão que dia a dia, hora a hora, momento a momento. A personalidade moral do homem dilatou-se e, na impossibilidade material de estar em toda a parte, diffundiu o seu pensamento em particulas que voaram aos grandes centros attrahidas pela gravitação que regula a harmonia das sociedades. Então o jornal renasceu de si mesmo, multiplicou-se, e começou a collaboração universal dos povos á beira da prensa d'onde todos os dias parte o mensageiro alado a sacudir da plumagem as ideias que o homem lhe prendeu. É o correio do mundo, o postilhão dos seculos; anda sempre e não cança. Cada geração tem o seu temperamento collectivo, as suas paixões, as suas luctas, os seus revezes e os seus triumphos. O jornal, que é tudo isso, irá resuscitando amanhã do tumulo que se fechou hontem, e acompanhará o movimento febril das gerações que se succedem. 
 
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