16 novembro, 2010

Por do sol

O sol punha-se lá fora, mas há muito tempo que as cores se tinham esbatido, ficando apenas a sensação da passagem do claro para o escuro. Tremeu. Tinha sempre medo quando se aproximava esta hora, quando finalmente lhes era permitido usar as casas-de-banho. Os buracos rudimentares, cerca de trinta ou quarenta, lado a lado. Nunca na sua vida tinha pensado que chegaria a esse ponto, de ter de partilhar estes momentos com desconhecidos! Que agora já não eram desconhecidos, de todo, apesar de não saber os nomes de mais que três ou quatro. Também não fazia grande diferença – ali eles não passavam de números. Os nomes, esses, tinham ficado do outro lado da cerca de arame farpado, juntamente com toda a sua vida: a sua casa branca, não muito grande, mas sempre cheia de alegria, os risos dos filhos, o sorriso de Agnieska. Como sentia saudades deles! Há meses que não os via. Ou seriam anos? Ali o tempo passava de uma forma estranha, e não havia forma de o contar. Nem havia qualquer interesse. Cada dia era mais uma batalha, uma tentativa de chegar vivo ao dia seguinte. Passou por entre os ratos e escolheu um buraco vazio – tinha de defecar o mais rapidamente possível. Ao lado, os companheiros aceitavam as mordidelas das pequenas bestas com gritos de terror. Ser mordido significava, muito provavelmente, ficar doente. Mas nem isso eles perdoavam – doente ou não, o trabalho tinha de ser feito. Por vezes, quando alguém estava em tal condições que não conseguia trabalhar, era levado pelos soldados, e nunca mais era visto por ninguém. Não se sabia ao certo o que lhes acontecia, mas parecia mais aterrador descobrir que continuar nesse dia-a-dia mesquinho. Um dia talvez o céu voltasse a ter cores, um dia talvez saíssem de Aushwitz, e recuperassem a honra perdida. Por enquanto, não havia diferença entre ele e aquilo que acabava de cair no buraco por baixo de si. 


03 novembro, 2010

Concurso de Escrita

Está em aberto um concurso de escrita, com que o meu blogue está a fazer parceria, sendo que será aqui publicado o conto vencedor.
Have fun!

26 outubro, 2010

Night on Earth

Já alguma vez se questionaram no que estarão a fazer outras pessoas no exacto momento em que estão a fazer alguma coisa? É disso que trata este filme: um mesmo momento, uma mesma acção, cidades diferentes. Uma viagem de taxi nunca é a mesma, principalmente se a "corrida" tiver lugar em sítios como Los Angeles, Nova Iorque, Paris, Roma ou Helsínquia. Cada cliente tem uma história diferente, cada condutor age de maneira, trazendo-nos diferentes emoções - seja o riso, a surpresa ou a comoção. 

Uma das coisas que tenho de gabar é o facto de, em cada uma das cidades, os protagonistas falarem a sua própria língua, provando, desde logo, tratar-se de um bom filme, um filme pensado, e não uma porcaria comercial das que passam na televisão. Aqui não há o típico actor americano a fazer de italiano e a falar inglês, como se essa língua fosse realmente universal. Não. Aqui há actores franceses a fazer de franceses, italianos a fazer de italiano. 

Também a banda sonora é deliciosa, uma música que vai seguindo ao longo dos episódios, dando-lhe estabilidade e coerência, e, talvez, ajudando a relembrar que se trata do mesmo momento em todos eles.

Por fim, tratando-se de um filme de 1991, há imensos pormenores engraçados que nos remetem para esse tempo - os telemóveis gigantes, com antenas, e o próprio facto de se fazerem grandes viagens de taxi, que hoje em dia, com a subida do preço do gasóleo, nem viagens de cinco minutos faríamos! 

Night on Earth. Vale bem a pena.

17 outubro, 2010

Escolhas

A faca percorreu o abdómen, abrindo uma fossa por onde correu um rio vermelho. Os dentes cerrados, uma tentativa de não gritar, rangeram de tal maneira que se diria que alguém acabara de passar com um giz num quadro de lousa. A anestesia não estava a fazer efeito… Não servira de nada, portanto, espetar aquela agulha de dez centímetros mesmo no meio da barriga, sem saber muito bem o que fazia. Não importava. Com ou sem dor, tinha de terminar o trabalho.

Com uma mão, puxou a pele aberta, e meteu a outra por si adentro. Tinha visto um livro de anatomia, e sabia que estava por ali algures. Por fim, lá sentiu um órgão, e começou a puxar. A dor era maior do que se podia imaginar. Vinha de dentro para fora, de algum sítio que ele nunca tinha percebido anteriormente que existia, vinha em massas de pressão, de mal-estar, fazendo brotar nuvens de sangue para o exterior. “Mais um pouco, pensou, só mais um pouco” e agarrou a faca de novo, para cortar o rim de uma vez por todas. Era só um rim, um minúsculo e inútil rim. Porque raio tinha de parecer que o mundo estava a desabar sobre ele, desfazendo-o em mil pedaços?

Por muito que quisesse parar, sabia que não podia. Já estava tudo a postos – a arca frigorífica, o telefonema para a pessoa que ia levar o órgão para o outro lado do mundo, e a menina, que já vinha a caminho. E no entanto, sentia que quase não tinha força para os receber. Não sentia mais nada a não ser aquela zona do corpo, que mesmo assim parecia propagar-se e espalhar-se por toda a sala, como uma bola latejante que exigia toda a atenção para si mesma. Só conseguia ver a faca reluzente nas suas mãos, o rim a sair pela abertura. Sabia que estava a gritar, pois sentia um ardor no fundo da garganta, mas não conseguia ouvir-se, assim como não conseguia sentir mais nenhum cheiro para além do cheiro a sangue, que fazia a sua bílis subir até à boca, que, sem saber como, voltava a enviar de volta lá para dentro. Hoje, só saía o rim.

E que felicidade sentiu quando conseguiu pegar nele e enfiá-lo entre o gelo! De repente percebeu o que a sua mãe queria dizer, quando insinuava que as dores do parto acabavam sempre por ser recompensadas no momento em que pegávamos com as nossas próprias mãos naquela coisinha que saíra de dentro de nós.

Sim. Já não faltava muito para ela vir. Sabia que ia morrer a seguir, esvair-se em sangue… mas pelo menos estaria com ela, e se estivesse com ela estaria bem, esqueceria toda a dor e sofrimento dos últimos minutos. Dera tudo por ela – vendera tudo o que em casa podia ser vendido, desde as jóias até a coisas básicas como móveis, e roupa. Quando não lhe restava nada, vendeu um rim.

As pessoas podiam criticar, e muitas tinham criticado, durante tempo demais. Para ele, não passava de uma questão de escolhas. Muitos gostavam de ir ao ginásio, emagrecer e parecer heróis. Ele, encontrara a sua heroína, e quanto mais pesada, melhor.

04 outubro, 2010

Para o bem da humanidade....


 

Algumas pessoas deviam submeter-se a isto. 
Obrigada.

26 setembro, 2010

Acasos

- Não andes por aí, Carina, vais cair.
A criança não liga nenhuma, e continua a pôr um pé a seguir ao outro, sobre o muro de pedra.
- Já te disse para saires daí... Tu vais cair! Vais cair e vai ser bem feita.
Ante o desacreditar da mãe, a menina cai, esfola o joelho, e começa a chorar.
- Caramba, Carina, eu bem avisei! - a mãe levanta-se e dá duas sapatadas na filha por ter caído.

Trinta e cinco anos depois.

Carina está deitada com o marido. Está naquele estado em que não estamos acordados apesar de também não estarmos a dormir. A letargia é interrompida subitamente pelo barulho de chapa contra chapa, e o chiar de travões. Carina levanta-se subitamente, com o coração aos pulos. "Foi o meu carro?". Desce as escadas a correr e abre a porta. Não importa que esteja de pijama, tem de se certificar. "Foi o meu!". Uma mossa do lado esquerdo, o pára-choques destruído, o retrovisor no chão. Do outro carro, o que bateu, sai uma senhora. Vem a mancar, as mãos a tremer sobre o rosto, a prender o choro.
- Mas qual é a sua?! - grita Carina, a fúria a sair -lhe pela boca entre golfadas de ar - Não acredito que me foi fazer isto, é que não acredito mesmo! É preciso muita lata...

Carina aprendeu que somos sempre culpados das nossas acções. Não acredita em "sem-querer", em acasos ou acidentes. A culpa? Da sua mãe.

24 setembro, 2010

As Dez Figuras Negras, Agatha Christie

 
«Um de nós... um de nós... um de nós...»
Estas palavras, infinitamente repetidas, matraqueavam hora após hora em cérebros receptivos. 
Cinco Pessoas - cinco pessoas assustadas. Cinco pessoas que se vigiavam umas às outras, que agora já quase não disfarçavam o seu estado de tensão nervosa.


E se dez pessoas fossem convidadas para passar um tempo numa ilha... sem conhecer o dono? E se essas pessoas começassem a morrer aos pouquinhos? O criminoso só pode ser um deles. Mas quem? 

Este é o primeiro livro que leio de Agatha Christie. Pelo que soube da autora, esta criou duas personagens que costumam rivalizar com Sherlock Holmes, sendo elas Hercule Poirot, e Miss Marple. Nesta história não entra nenhum dos dois, assim como não é uma história de detectives dita "normal". Isto porque neste tipo de histórias costuma haver algum problema que precisa de ser solucionado, enquanto que neste livro a procura da solução e o próprio problema são o mesmo. Todas as personagens procuram descobrir quem é o assassino, mas todas as personagens podem ser o assassino. Assim, a trama adquire um tom de mistério e suspense que de outra forma não adquiriria.

Um dos aspectos mais positivos do livro será, portanto, todo o jogo psicológico em torno das personagens - os seus medos, as suas suspeitas, as suas memórias. No entanto, acho que por vezes há uma repetição excessiva dos factos, que são repetidos inúmeras vezes. Também não gostei muito da forma como as personagens e a questão é introduzida ao público - através de cartas pessoais que todas as personagens receberam. Isto torna o início pouco cativante e quase confuso, por não se perceber muito bem quem é quem, já que se tratam de tantas personagens.

Tirando isso, posso dizer que Agatha Christie me cativou, pela forma como manteve o suspense e o mistério até ao fim, pela forma como explorou os sentimentos e pensamentos pessoais de cada uma das dez personagens. Posso com certeza afirmar que vou ler mais policiais desta autora.