04 agosto, 2012

Sobre o percurso presente

Ultimamente tem-me dado a nostalgia das pessoas que partem. Ao percorrer essas ruas que já me parecem minhas, vou reparando nos pormenores a que não se dá importância quando se passa pelos mesmos sítios todos os dias. Os olhos verdes do pedinte à porta do supermercado, que tão amavelmente me saúda com um "bom dia"; o nevoeiro que cobre a ponte de manhã cedo, deixando-a meio desamparada, pendurada sobre uma espécie de nada; o gato escanzelado que se esfrega nas paredes ou se lambe ao sol a tentar livrar-se das pulgas.

"Porque é que não trouxe a minha máquina?" queixo-me mentalmente ao aperceber-me destas cenas. Mais do que memórias, é essa fealdade que procuro, essa sujidade depravada que a torna numa bela imagem. Que as memórias, essas, não me arrependem do meu acto de desprendimento final.

Não vou sentir saudades do barulho da rolha a saltar da garrafa, ou do cheiro a vinho que ao fim do dia permanece nas minhas mãos. Não vou sentir saudades de procurar no armário a garrafa certa, do som do vidro a penetrar a caixa de cartão. Assusta-me mais o facto de não mais ouvir o eco metalizado dos meus passos sobre o aço trabalhado de Eiffel, enquanto se impõe a calma dessa paisagem de casinhas encavalitadas umas nas outras, o poema eterno de Rui Veloso.

29 maio, 2012

The man who lost his soul


Subiu a rua. Chegou lá acima ofegante. Mas esse cansaço já não o afectava. Com esse cansaço podia ele bem. Era aquele tipo de sentimento que se cura na cama, durante a noite, depois de mais uma sessão de sexo furioso com aquela mulher que chamava sua, e que servia mais como anestesia do que fonte de prazer.

O outro não podia ele curar. Aquele cansaço que o fazia hesitar entre saltar ou não sempre que chegava ao décimo terceiro andar em que trabalhava, seis virgula cinco dias por semana, e consultava a sua agenda. 8h15: relatório mensal. 9h: reunião com a direcção. 10h30: pausa para o café. 10h40: defecar. Não havia actividade que ela esquecesse, e se esquecesse é porque não havia tempo para ela.

Sim, esse cansaço coparado com o outro não era nada, e quase se riu por estar a ofegar, por se “sentir cansado”. A agenda dizia “não há tempo para estar cansado”, o director da empresa dizia “não há tempo para estar cansado”, a sociedade dizia “não há tempo para estar cansado”, mas ali estavam as pernas dele a gritar cansaço, e esse, apesar de curável, ele não podia evitar.

E então riu-se alto. Deu uma gargalhada para o infinito e sentou-se no cimo da rua, a olhar a paisagem em que nunca tinha reparado, enquanto desfazia uma a uma as páginas da agenda e bradava “19h30: horas de descansar!”.

O seu nome era para surgir nas notícias, dias depois, entre um roubo a uma joalharia e as caras dos jogadores que mais golearam na última jornada. Mas o noticiário atrasou-se, e para cumprir os horários passou-se essa notícia à frente. Ninguém teve tempo para reparar na diferença.

15 dezembro, 2011

Germes

Tiras a caneta da boca. O fio de baba cai de entre os lábios e desce devagarinho pela pele, arrepiando os pelinhos invisíveis que se arrebitam no teu queixo. Faz uma linha quase perfeita, não fossem as duas gotas mais grossas a meio. Entremos. Encolhamo-nos milhões de vezes até sermos parte da multidão que habita essa bolha, esses dez milhões de seres que se amontoam num mundo de casas amarelas e estradas que as recortam. Aprendem na escola como ali chegaram, anos atrás, um povo habituado à seca contínua e ao sol do deserto. Aprendem como um terramoto rasgou a própria Terra em dois e deu início a uma nova era, como um arranhão marcado na pele, vermelho sobre o branco, enterrado a fundo. O deserto deu lugar à sombra, a um clima húmido e tropical que estimulou a população a reproduzir-se. Todos os estragos foram rapidamente apagados à medida que se levantavam prédios e fábricas, que se plantavam jardins e florestas e se desviavam leitos de rios. São todos relativamente felizes, seguindo as suas próprias vidas sem preocupações. Sabem que à volta da Terra existe uma mancha negra chamada universo, onde se acumulam planetas como o deles mas sem pessoas como eles. Aprendem-no na escola mas não se preocupam muito com isso. Interessa-lhes mais o que se passa lá dentro do que o que não se passa lá fora. Sabem que isso poderia mudar as suas vidas, a própria vida como a concebem, mas de repente têm mais com que se preocupar. Já não são tão felizes. São muitos num mundo construído por poucos. Há velhos a mais e jovens a menos para os sustentar. E os jovens a menos são a mais para os empregos que há, que são a mais para o dinheiro que não há, que simplesmente desapareceu, que caiu pelo buraco do bolso das calças de um desses poucos que construiu o mundo de muitos. Morrem lentamente, uns em sacrifício dos outros enquanto se recusam a corrigir uma sociedade obsoleta, afundada em imagens falsas de perfeição. Compram-na diariamente, acreditando que quanto mais a comprarem mais felizes serão, sem perceber que a felicidade é um sentimento que vem de fora, talvez desse universo indesvendável que têm vindo a esquecer. Afundam-se assim devagarinho, metafórica e literalmente, não fossem eles nada mais, nada menos do que os germes que habitam a saliva que caiu dos teus lábios quando tiraste da boca a caneta que roías furiosamente sem te aperceberes, enquanto tentavas entender as linhas de fórmulas matemáticas que o professor vai escrevendo no quadro branco da sala de aula.

27 novembro, 2011

Memórias

Memórias  -  pedaços de vivências seleccionados segundo critérios pessoais que variam de pessoa para pessoa. Armazenam-se no cérebro sob a forma de uma matéria viscosa, semi-transparente, que se agarra a outros pensamentos, deformando-os. Este processo, que dá pelo nome de "lembrar", provoca sintomas  como distracção, dificuldade de concentração e alterações emocionais como o riso, o medo, o choro compulsivo, a raiva, a saudade. Observaram-se em pessoas que padecem desta doença dois tipos de reacção: a necessidade de guardar a memória e a necessidade de a partilhar. Esta doença é altamente contagiosa e o simples contacto com outros provoca a propagação do vírus. Até hoje não são conhecidas curas.

01 novembro, 2011

Vida de rua


Levas o cigarro à boca. Inspiras. O fumo sai-te lentamente por entre os lábios, de encontro ao ar frio da noite. Não aquece. Não atenua a crueldade da rua. Continua tudo exactamente como estava. O cobertor sujo, a prostituta. Um carro abranda, parece que ela já teve a sua sorte. E a tua? Vês uma cadeira de bebé na parte de trás. Lembras-te do teu. O bebé que fizeste e nunca chegaste a ver. Lembras-te dela. Aquela a quem chamaste puta, apesar de a verdadeira estar agora à tua frente, inclinada sobre a janela do carro. Não é pior que tu. Ela troca o corpo e a dignidade por comida. Tu troca-los por bebida. Pela droga que te desce agora aos pulmões. Cada um tem o seu preço. Basta tocar na ferida e todos vacilam. Todos caem na armadilha que é a vida. Ratoeira. Lembras-te do ratinho que tinhas na tua infância. Segura-lo na mão e escondes-te atrás de um corpo. Uma saia verde escura. O portão de ferro volta a estar à tua frente. Não queres ir para a escola. E mais valia não teres ido. Foi lá que tudo começou. Que levaste o primeiro cigarro à boca. Tossiste, os outros gozaram contigo. Ainda ouves os risos deles na tua cabeça. Queres atirar o cigarro ao chão. Parti-lo em dois. Como ela fazia. Lembras-te dos seus lábios. Do vapor quente, adocicado que deles se soltavam. Afundas-te outra vez nesse odor, como fazes sempre que estás em baixo. No seu sorriso. E agora ela foi-se. Tal e qual a prostituta. Imaginas esfaquear esse homem que a levou. O prazer de sentir as suas entranhas na ponta da tua faca. Lembras-te da primeira vez que o fizeste. Do olhar assustado, as lágrimas a precipitar-se num agudo pedido de ajuda. Que pares. Todos eles querem o mesmo. Que pares. Não é isso que queres para ti mesmo? Mas continuas sentado no chão, no cobertor sujo. Sabes que o teu cheiro enoja os outros. Os perfeitos. Os que souberam parar sem nunca terem começado. Por nunca terem começado. Lembras-te dos olhares que partilhavas na prisão. Olhares severos de quem não confia em ninguém. Também tu deixaste de confiar no mundo, muito antes de ser altura de o fazeres. Entre a pureza angelical daqueles meninos de ouro, bem engomados nos seus uniformes escolares, já tu sabias que o mundo não era cor-de-rosa. Olhas as tuas mãos. Tens os dedos sujos pela vida. Gostavas que a prostituta não se tivesse ido embora. Imaginas-te a penetrá-la furiosamente, mas nem para isso serves. Até nisso os meninos de ouro ganham. Apagas o cigarro na borda do passeio e encolhes-te no cobertor. Talvez o amanhã não venha. Talvez tenhas a tua sorte.

21 setembro, 2011

Minuit a Paris

Paris é considerada a cidade mais romântica do mundo. Sempre discordei deste pensamento até visitar a cidade. Há tantos espaços no mundo, cheios de encantos inexplicáveis, que fariam saltar o coração de qualquer casal que por lá se passeasse. Roma, que nos leva para trás, de volta a um tempo em que se usava lençois brancos à volta da cintura, que a perfeição, essa via-se ao longe, esculpida na pedra. Praga, cidade de fábulas e contos de fada, onde tudo parece real e possível. Até mesmo a Londres pacata das casinhas com jardim, onde se imagina logo um casal a envelhecer de mão dada junto à lareira. 

Mas então vi Paris. A Paris das ruas estreitas, semi-esquecidas, trocadas pelas grandes avenidas que tomam os turistas, as ciganas surdas-mudas, os cantores de rua e os vendedores ambulantes. A Paris dos croissants a cada esquina, das banquinhas de livros e postais de outra época que se estendem à beira rio. A Paris medieval da Notre-Dame, das histórias enterradas. A Paris da cultura, da boémia, da alegria do carácter bem definido, dos bigodes compridos, das boinas na cabeça e baguetes debaixo do braço. 

Sim, Paris é a cidade mais romântica do mundo. Não porque albergue nela a receita secreta dos casais felizes, que esses, se tiverem de o ser, são-no, romanticamente, em qualquer canto do mundo. Paris é aquela mulher enigmática que se deixa gostar facilmente mas parece impossível de conquistar. Faz connosco um jogo de sedução constante, um olhar simultâneo de desafio e repulsa, um sorriso de dúbia confiança e palavras doces cheias de malícia. 

Paris é a cidade mais romântica do mundo, sim, mas porque é impossível por lá passarmos sem nos apaixonarmos cegamente por ela.  

Por tudo isto, obrigada Woody Allen, por me fazeres reviver Paris.

13 setembro, 2011

Hippie Chique

Recebi um email publicitário, daqueles que não sabemos muito bem de onde vieram, visto que nunca fornecemos o nosso email àquela empresa. Este em específico era de uma marca de roupa, e anunciava, em letras bem grandes, as novidades, "Acessórios de hippie chique".

É uma situação que me fez rir, rir muito, e bem alto. Hippie e chique são coisas que não combinam. O hippie é um ser que usa calças gastas, que encontrou no sótão ou comprou numa loja de segunda mão, porque era mais barato. Usa vestidos ou camisas largas, para poder andar à vontade, sentar-se no chão, apanhar os legumes que plantam na horta. Anda de pés descalços, para sentir a terra, ligar-se à natureza. Colares, pulseiras, cintos e acessórios, são normalmente coisas feitas à mão, por ele próprio, amigos e conhecidos, ou tão somente uma das feiras de artesanato que frequenta.

A partir do momento que uma coisa é chique, que não obedece à lógica do prático e confortável, e que tem como fundo servir as aparências e é fabricado de modo massivo e industrial, deixa de ser hippie. Hippie chique, não existe, tenho muita pena.

06 setembro, 2011

Quem disse que Deus não existe?

É omnipresente. Omnisciente. Omnipotente.
Só não criou o Homem. Pelo contrário, foi o Homem que o criou a ele - ele? Ela!
Deus é a Web.

28 agosto, 2011

Cem Anos de Solidão, Gabriel Garcia Marquéz

São cem anos de Buendía, a "família de loucos" que repetem uns após outros as mesmas façanhas, os mesmos erros. São cem anos de Macondo, a terra que eles próprios inauguraram e que vão vendo evoluir com a chegada dos ciganos, dos turcos, das francesas e dos americanos que gerem a companhia bananeira.
 
Se ao princípio ficamos simplesmente com a sensação de que estamos a ler uma série de disparates com uma certa piada, à medida que o monte de páginas se torna maior junto à capa do que à contra-capa percebemos que há ali algo mais do que uma simples história de uma família e de um lugar. Estamos perante uma história de avanços e retrocessos próprios da evolução humana - casar, ter filhos, morrer; revoltas e progressos tecnológicos, alfabetização, analfabetização, a influência do tempo, do governo, do exército. É uma critica à política, à família, à guerra, ao casamento, à tecnologia, ao estudo e ao lazer, à forma como os homens conduzem o seu mundo. Um apelo mudo em forma de gracejo. 
 
De facto, Garcia Marquez não se poupa ao criar as situações mais bizarras e os enredos mais espectaculares, dando à história um humor muito sul-americano que encontrei nos livros de Mário Vargas Llosa e Laura Esquivel. É este humor que vai servindo de cola unificadora da história - é ele que nos prende à história e nos vai passando a crítica, que nos vai mostrando o quão ridículo somos.

É um retrato real de um mundo que se vai criando e destruindo a si próprio, em que as pessoas esquecem  as pessoas e são alimentadas por sentimentos egoístas, num ciclo vicioso que se vai repetindo sucessivamente. Para acentuar esta ideia, Garcia Marquéz criou toda uma gama de netos e tetra-netos cujos nomes se vão alterando entre Aureliano, Arcadio e Amaranta, cujos destinos se vão fotocopiando. E  que somos nós todos senão uma cambada de Aurelianos e Amarantas?

23 agosto, 2011

Igualdade

Se fôssemos estrunfes seriamos verdadeiramente todos iguais, e distinguir-nos-iam apenas pelas nossas características pessoais. 
Vamos todos comprar chapéuzinhos brancos?

22 agosto, 2011

Sobre o exército e a guerra

 "Ainda que tenham demorado mais de uma hora a passar, podia ter-se pensado que eram apenas alguns pelotões a andar às voltas, porque eram todos idênticos, filhos da mesma mãe, e todos suportavam com igual estultícia o peso das mochilas e dos polvorinhos e a vergonha das espingardas com as baionetas caladas e  tumor da obediência cega e do sentido da honra."
 Gabriel Garcia Marquéz in "Cem anos de Solidão"


Encontrei finalmente alguém que concorda comigo.

20 agosto, 2011

"Chegou o Verão!"

Nunca soube exactamente que fenómeno me levou a repetir esta frase de ano para ano, na altura em que a estação das flores e dos amores dá lugar à dos gelados e sapatos cheios de areia. O que é certo é que o prognóstico sempre veio, mas nunca aliado a questões como o calor abrasador, o ar pesado, difícil de respirar, que nos faz dar voltas e voltas na cama sem conseguir adormecer. Esse vinha sempre dias depois, como que para confirmar o meu vaticínio. Havia qualquer outra coisa, um outro sinal enviado pelo universo e captado pelas minhas antenas sensoriais.
 
Só o percebi este ano, quando, longe de casa, não encontrei Verão. As roupas decresceram, os gelados tornaram-se parte da dieta diária, mas ainda não conseguia dizer o nome dessa estranha estação. Às vezes, estamos tão perto das coisas e tão acostumados a elas que deixamos de as ver. Passam a ser objectos naturais, hábitos diários, produtos da nossa personalidade. É preciso sair dessa bolha e sentirmo-nos um pouco despidos, desprotegidos, para lhes dar a atenção e importância que outrora negligenciamos.

 Quando voltei a casa depois de tantos meses fora, era um fim-de-tarde dourado e a minha avó estava no quintal a regar as plantas. Trazia um avental pendurado no pescoço, o rosto sereno, marca do cansaço de quem cumpre as tarefas diárias. A água saía a jorros pela mangueira e era imediatamente absorvida pela terra e laranjas caídas no chão. E aí escapou, sem que para isso eu tivesse de fazer qualquer esforço: “Chegou o Verão!”.

 Afinal, tratava-se dessa  massa fina que me entra pela janela todos os fins-de-tarde, arrastada por uma brisa abafada que se entranha nas cortinas e nos lençóis – o cheiro a laranjas e terra molhada, o cheiro do Verão.


22 julho, 2011

Prisão

Uma nuvem de lágrimas abateu-se sobre a cidade, projectando sombras de bocas abertas derramando gritos mudos de terror. Mãos desesperadas atiram-se para fora dos postigos, das janelas, das frinchas das portas, tentando desesperadamente agarrar as roupas dos que passam. As suas unhas cravam-se no solo e arrancam pedras da calçada e raízes, dolorosa sinfonia que arranha os ouvidos dos que passam. Clamam por atenção, suplicam para que os olhem. Mas os de fora nem os notam. Deambulam sem destino,  ofuscados pelas imagens coloridas que se estendem sobre as habitações - imagens de raparigas jovens com roupas sofisticadas e óculos de sol em praias exóticas. São marcas de um passado que já não existe, mas que insiste em impor-se todos os dias, com um sorriso trocista, perverso, atirando-se para os transeuntes, derrubando-os sem clemência. Os outros, os que escapam, procuram no céu algum conforto, esperança última de salvação. Mas enchem-se os seus olhos de terror quando, virados para cima, descobrem esse azul eterno mutilado por arranha-céus gigantes, as grades dessa prisão.

15 junho, 2011

13 junho, 2011

Para as pessoas que conheci cá fora.


The voices of the people outside enter through the window - laughs, songs, small screams of excitement. In the kitchen, the water boils in a broken pan. The corridors are empty, the doors are closed. 

We feel the same. Excited, but empty. Excited about the future that is coming, about the ones we left and can’t wait to see again. But we are going, and we can’t come back. It’s not like we are going to follow through this corridors again, buying chocolate in a crapy-stealing-money-machine in some really old faculty, with doors impossible to open.   It’s not like we’re going to shut shuttlecocks in the middle of some green fields or play aggressive card games, become hysterical and insult each other again. 

Poznan will always be Poznan, the city that wakes’ up in excitement and falls asleep in the deepest calm; with the Stary Rynek, full of unique smells, colors and sounds; with the drunk people complaining in the trams; the soap bubbles flying in the air. But what is a Poznan without that faces we are familiar to? Without the  laugh of some small girl with a big ass? Without the evil gluton-queen and the smell of some delicious meal coming from the kitchen? Without that girl that everyone have to make an effort to take out of the room? Without the little fairy dancing barely foot on the streets? Without the eternal song of un-understandable sounds from some phonetics freak? Without the hiper-negative creature that doesn’t like nothing? Without the worries of the purple-haired multi-lingual bitch? Without the strength of the polish speaker punk? Without the joy of the tiny sensitive girl? Without the hugs of some chinese golden-hearted guy? Without the way of opening doors of some evil cat? Without the charm of a french little princess? 

Poznan will be Poznan. A city of memories, of personal stories that nobody else cares about, of special places that nobody else shares. A city of inaudible songs and invisible steps. A city that only us can see and will not be able to touch again.  Poznan will be some kind of hibernated island, covered by the highest snows, in which we will never find  our old Poznan again. But it existed. And as long as all of you remember, it will always be our Poznan, a unique secret shared by unique people.

Realidades

Me dito aquilo que foi ensonhado por outros professores, os que acreditam no faz-de-conta como forma mais séria de viver. Estreio a realidade da inexistência, a incongrudência das cu-relações sociais (im)plantadas em recipientes cheios de nada, o alimento que melhor as faz crescer.  É pena, que o ali devia chegar ao mento, em forma de viagens, físicas ou espectrais , que afinal as penas servem é para voar.

11 junho, 2011

Próximo livro?

Se ler é daquelas coisas mesmo indispensáveis na vossa vida, mas já acabaram o último livro e não sabem bem o que ler em seguida, este site pode ser uma ajuda.
Trata-se de uma base de dados de gostos de leitores, que analisa um livro de que gostaram e dá-vos uma lista de livros que é provável gostarem também.
Já adicionei imensos livros na minha lista de livros a comprar!

11 maio, 2011

Sombras

O vulto negro desceu pelas paredes da catedral, recortando-se no cinzento do fim de tarde. Não fez qualquer som ao descer, como se as suas mãos e pés não tocassem a pedra. Foi por acaso que me apercebi da sua presença, quando me virei de repente para apreciar os reflexos azuis e violeta vindos das janelas. Estaquei, e ele estacou ao mesmo tempo, sobressaltado por ter sido descoberto. Não lhe pude ver o rosto, escondido na escuridão, mas não tive qualquer dificuldade em reconhecê-lo, ligeiramente dobrado sobre si mesmo, o cabelo a saltar em todas as direcções. Era o mesmo que me tinha seguido no mercado há duas noites atrás, entre barracas vazias e silêncios, acentuados pelo contraste do borbulhar constante que se verifica durante o dia. O mesmo que se sentara no parque durante horas, a observar-me ao longe.

Aparecia sempre ao anoitecer, quando as ruas se despem de gente e cor e atingem uma espécie de cinzento esbatido, salpicado aqui e ali por holofotes de luz amarelada. Quando o som é castigado pela escassez de visão, três mil vezes ampliado, três mil vezes chicoteado nos ouvidos de quem passa. Mas nunca uma única vez ouvi um eco que fosse de um dos seus passos, um ofegar da sua respiração, um roçagar da sua roupa ao dobrar uma esquina. Com uma agilidade de gato, limitava-se a seguir-me e observar ao longe. Nunca tentou aproximar-se ou dirigir-me uma palavra. Ficava, simplesmente, e depois, tão facilmente como vinha, desaparecia.

Estamos virados um para o outro e nenhum de nós se mexe, mas sei que assim que o faça ele o fará também. Ele conhece-me por dentro, ao ínfimo pormenor, não como um amigo de longa data ou um irmão com quem partilhamos toda a vida, mas a um outro nível. Ele viajou mais fundo, aos recônditos da minha mente, e aprendeu os meus receios, as minhas reacções. Intrometeu-se nessa fracção de segundo em que o cérebro ordena ao corpo que se mova, e também ele, nessa fracção de segundo, age da mesma forma. Quando ando, segue-me, quando me detenho, pára. Se levantar um braço ele levanta o dele, se me deitar por terra ele deita-se também.  É um jogo psicológico que me assusta. Mesmo ao longe, mostra que tem poder sobre mim – se não podes esconder o teu próximo passo, como podes fugir?

Entre o momento em que os meus olhos e os dele, algures na escuridão, se cruzam, ambos sabemos que me tornei consciente da sua presença, que o reconheci. Mas mostrar-lhe que me tem sob poder seria declarar abertamente uma rendição. Com uma confiança que não tenho, decido entrar no jogo - o próximo a mexer não serei eu.

E assim ficamos, frente a frente, cada qual desafiando o outro, cada qual tentando mostrar-se mais forte. Não há qualquer exposição directa da nossa parte: não se trata de uma briga ou uma discussão filosófica. E no entanto, todas as nossas capacidades físicas e psicológicas estão em causa. Quem será o primeiro a acordar o corpo desse estado passivo, quebrar o selo de silêncio e disparar as palavras que atacarão o outro? 
É uma guerra fria sem início ou fim previsto. Como se o tempo tivesse parado naquele preciso instante, deixando-nos estáticos, à espera que os segundos voltem a fluir. Só que o tempo continua a passar, e vai levando com ele pedacinhos de nós, corroendo-nos, enfraquecendo-nos.  É uma questão de tempo até eu sucumbir ao cansaço, ao desespero, ao medo. As minhas pernas estão rígidas, das muitas horas passadas em pé. A minha cabeça pesa. Os olhos ardem. Mas do outro lado, ele continua de pé, nada mudou. Excepto talvez o céu, que começa a mudar de cor.

Em breve estaremos rodeados por turistas despreocupados que nos tomarão por atracções, e nos atirarão moedas vindas de todas as partes do mundo. Que nos vão olhar com indiscrição e rir, apontando ferozmente na nossa direcção. E aí, posto a descoberto a um público ávido de entretenimento, serei capaz de enfrentá-lo? Ou deixarei que, com um aplauso da audiência, me vença, resignando-me de joelhos à sua imposição?

O amanhecer afirma-se e reparo que o vulto negro se afastou. Não, não se mexeu, moveu-se, simplesmente. Mas atrás dele, a catedral, imperiosa, barra-lhe o caminho – seria impossível afastar-se nessa direcção. Não, ele apenas parece mais longe. Não sei exactamente como explicar, mas é isso que acontece. À medida que a manhã vai abrindo os braços para o mundo, ele parece estar cada vez mais longe. Até que por fim, quando as luzes nocturnas se apagam, ele se apaga com elas.

Olho com angústia o local onde se encontrava a miragem, e percebo finalmente. Acabo de perder uma cópia de mim mesmo, a minha sombra.

04 maio, 2011

Em relação ao Bin Laden

Como podemos considerar Homem aquele que se senta confortavelmente esperando pela morte de outro? Que homem é esse que se considera Deus, no poder de decidir pela vida e a morte? Que os exemplos do passado, tão vivos ainda, continuam a ser insuficientes para abrir os olhos a uma sociedade que segue o mesmo caminho que eles. Que a Humanidade não está em julgar e castigar o outro, mas sim em compreendê-lo e ajudá-lo a tornar-se alguém melhor.

Por isso digo aqui e para todo mundo, que a Casa Branca não é melhor que esse homem que morreu às suas mãos há duas noites atrás.

29 março, 2011

Animal Farm (A quinta dos animais), George Orwell

Quando os animais de Manor Farm se apercebem que estão a ser escravizados pelo Homem, decidem rebeliar-se e governar eles mesmos a quinta. Os porcos, que eram os mais inteligentes, rapidamente aprenderam a ler e a escrever e começaram a ditar que resoluções tomar, criando uma nova sociedade, o Animalismo, baseada na igualdade de todos os animais, em que todos os animais trabalhariam para se governar a si mesmos. No entanto, com o poder a subir-lhes à cabeça, os porcos começam a distanciar-se dos restantes, criando uma pequena ditadura.

Não será preciso dizer que este pequeno conto é uma crítica directa ao comunismo de Estaline, sendo que todos aqueles que ouviram falar deste livro o devem já saber de antemão. No entanto isto não arruina a leitura, que nos faz sentir agradavelmente surpreendidos com a forma como o autor conseguiu simplificar todas as linhas estruturais deste regime e encaixá-las nesta alegoria. Desde coisas simples como a polícia privada, e o afastamento relativamente ao exterior, considerado "o inimigo", até à alteração constante dos decretos primeiramente elaborados, de forma a servirem os seus objectivos, a forma como os animais são persuadidos a substituir as suas memórias por acontecimentos fictícios, permitindo um constante aumento de poder por parte dos porcos.

Animal Farm é, portanto, mais uma história ao estilo de Orwell, em que somos teletransportados para um mundo fictício em tudo semelhante ao nosso, onde a crítica é o principal objecto da história. É importante lembrar que este livro foi publicado em 1945, apelando para uma realidade actual, de que muitos ainda não estavam conscientes. 

No entanto, e apesar de se falar unicamente da crítica de Orwell ao regime Soviético, há que reparar que os restantes animais são continuamente conotados de estúpidos, incapazes de aprender mais que as duas ou três primeiras letras do alfabeto, e que foi a sua principal diferença relativamente aos porcos, realçando assim a importância da educação e do ensino para evitar ser corrompido e enganado. Também o final do livro deve ser tido em conta, em especial a última frase, quando se verifica que  afinal o Animalismo acabou por se tornar semelhante ao "governo" original da quinta, restando a pergunta: não estará Orwell a criticar igualmente o capitalismo ocidental?